E-Book, Portuguese, Band 24, 469 Seiten
Reihe: Romancistas Essenciais
Botelho / Nemo Romancistas Essenciais - Abel Botelho
1. Auflage 2021
ISBN: 978-3-98551-768-8
Verlag: Tacet Books
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark
E-Book, Portuguese, Band 24, 469 Seiten
Reihe: Romancistas Essenciais
ISBN: 978-3-98551-768-8
Verlag: Tacet Books
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark
Abel Acácio de Almeida Botelho (Tabuaço, 23 de setembro de 1854 Argentina, 24 de abril? de 1917) foi um coronel de Estado-Maior do Exército, escritor, político e diplomata português. Representante em Portugal do realismo extremo, conhecido como Naturalismo, escreveu, entre outros, o O Barão de Lavos e O Livro de Alda, os dois primeiros títulos da série Patologia Social.
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I
Naquela noite de Março, desabrida e húmida, uma grande animação fervilhava alacremente ao fundo da Rua do Salitre. Era em 1867. Frente a frente, as Variedades e o Circo Price alinhavam os seus bicos de gás festeiros, a que as vergastadas do noroeste impunham um tremelilhar inquieto. Quinta-feira — noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual colados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadame. Tudo queria bilhete. Havia chapéus tombados, ombros que penetravam à cunha, braços arpoando vigorosamente os alizares castanhos dos postigos, mãos retirando triunfantes, muito erguidas, com um papelinho azul ao vento.
A cada minuto a agitação crescia. Pregoavam água fresca, pastelinhos, tâmaras. de um primeiro andar, com tabuinhas verdes, logo abaixo do Circo, meninas de batas brancas suplicavam: — Psiu! Não sobes, ó catitinha? — aos janotas que passavam. Rodopiava no ar, a cada estocada de vento, um cheiro pelintra a iscas e a refogado. A iluminação profusa dos dois teatros doirava, remoçava, erguia as caliças octogenárias das Variedades, acendia espelhamentos fulvos no basalto húmido da calçada, e fazia entrever na penumbra, pela rua acima, o renque tortuoso dos prédios que subiam. De vez em quando, uma carruagem passava; e no seu rápido passar entre os dois teatros, uma dupla fita de fogo lhe corria na fluidez do polimento.
Um homem vagueava ali, contudo, que não parecia dar-se grande pressa em entrar. Ia e vinha, parava, escoldrinhava a multidão, passava automaticamente de grupo a grupo, nesta ansiedade tortuosa de quem procura com aferro alguém. No olhar, dilatado e teimoso, de uma secura inflamada e vítrea, fulgurava ardente a obstinação de um desejo; ao passo que na boca a brasa do charuto, num labirinto febril de pequeninos movimentos bruscos, denotava que os lábios e as maxilas eram sacudidos nervosamente por uma forte preocupação animal.
Devia de ser rapaz quem ele procurava; porque os olhos deste homem alto e seco poisavam de preferência nas faces imberbes, levemente penujosas, dos adolescentes. Fitava-os um instante, com uma fixidez gulosa e sombria, e desandava logo para outro lado. Percebia-se mesmo, ao cabo de alguns minutos de observação, que ele não procurava determinadamente alguém. Ao contrário, parecia comparar, confrontar, escolher. Se havia garotos por junto dos quais passava rápido, após um olhar furtivo, havia também outros a cuja descoberta lhe arrepanhava as faces a mais pungente sensualidade. E então, com estes, não havia meio que não empregasse para lhes ferir a atenção. Roçava-os de leve com o braço; tocava-lhes a coxa com a bengala, como distraído; postava-se-lhes ao lado, fitando-os com o olhar seco e vítreo, persistente; soprava-lhes na nuca uma baforada de fumo, ao passar. Todo este jogo, — é de saber —, feito sempre sonsamente, com cautelas de hipócrita, com astúcias felinas, todo sabiamente intervalado com olhares perscrutadores em torno... não fosse por aí aparecer e surpreendê-lo alguém conhecido.
E, de cada vez que o jovem interpelado se afastava, aborrecido ou indiferente, o noctívago caçador de efebos lá seguia em cata de outro, cortando os grupos, atravessando a rua, numa incoerência de vertigem, não se sabia bem se tiranizado por um vício secreto, se esmagado por uma feroz melancolia.
Um bom velho de ar marcial, vermelhinho e gordo, bigode e pera negros, bateu-lhe no ombro:
— Bravo, barão!... Rente às quintas-feiras... É como eu.
— Ó coronel! — balbuciou o barão, levemente perturbado, cumprimentando, — isso é que é zelo... pelo culto das belas.
— Ai! Ai!... Com elas é que eu me quero. Já agora hei de morrer assim... A esposa, boa?
— Boa, obrigado... Não quis vir.
— Já tem bilhete? São horas.
— Eu não entro por ora. Logo nos vemos, lá dentro.
Um impulso da onda que entrava separou-os.
O barão deu de frente então com um rapazito que vendia pastéis. Teria quinze anos. Pele morena, olho aveludado, tipo insinuante de marnoto, camisola de xadrez azul e preto, calça branca muito justa, à frente uma grande cesta vestida de oleado, em cujo interior destacavam de uma alvura de toalha várias gulodices. Como viu o barão encará-lo com insistência, o rapaz naturalmente aproximou-se:
— Quer pastelinhos, freguês?
E oferecia-lhe o cesto, donde vinha um cheiro morno a canela e a manteiga.
O barão porém respondeu-lhe: — Não, filho... não quero pastéis! — com um acento, uma expressão tão nuamente lúbrica, que o rapaz retrucou, num tom de desprezo sacudido, dando-lhe as costas:
— Olha que gajo!... Você comigo engana-se!
O barão circunvagou rápido em torno com a vista, a ver se alguém teria ouvido, e rodou viscoso, manso, para longe, infiltrando-se, anulando-se na massa anónima daquela multidão turbulenta.
Aproximara-se do teatro das Variedades, onde retinia o sinal de começar o espetáculo. Tinha entrado quase tudo; os retardatários premiam-se ao fundo do corredor estreito que dava para a superior. À porta, dois contratadores apenas, um polícia, e, sentada no último degrau sobre a rua, uma velhota, de tabuleiro à frente, coalhado de quanto há de mais pelintramente indigesto em matéria de doçaria, com uma vela protegida por um cartucho de papel cor-de-rosa.
Dali o barão, um pouco à vontade, mais fora do alcance de encontros inoportunos, continuava a perscrutar com um exclusivismo ardente as imediações do Circo fronteiro. Ao descortinar na sombra dos extremos da rua qualquer escorço vago de adolescente que viesse a crescer, aproximando-se, o seu olhar piscante de míope contraía-se numa crispação suprema de expetativa angustiada, e seguia-lhe vorazmente os movimentos, até poder analisá-lo, adivinhá-lo bem na conformação, no tipo, na plástica, no modo de vida provável, nas predileções sensuais do temperamento, quando o rapaz entrava na zona duramente iluminada pelo renque de bicos de gás tremebrilhando sobre o portal do Circo.
No melhor de um destes alheamentos fervidos de pederasta, o barão estremeceu. Mão amiga lhe pesara no ombro, enquanto uma voz familiar lhe perguntava em ar de adorável reprimenda:
— Que faz você por aqui a esta hora?
Era o seu leal e velho amigo, Henrique Paradela, que, com a mulher pelo braço, descia tranquilamente à Baixa.
O barão ia-se traindo. A súbita aparição daquele par bondoso, honesto, simples, caindo de repente, com toda a galharda e lúcida expansão de uma vida exemplarmente calma no torvelinhante mistério da alucinação do seu vício, envergonhou-o, aclarou-lhe a razão, deu-lhe a medida do próprio aviltamento, e, como um raio de luz faiscando nas estalactites de uma caverna, acordou-lhe na consciência um repelão de remorso. Corou, atabalhoou, agitou-se, e após uns segundos de arreliante embaraço, mal conseguiu balbuciar:
— Estou à espera de uns rapazes... Combinámos vir ao Circo hoje... Mas demoram-se.
— Não sei como ainda há quem ature esta maçada, — comentou Henrique, apontando com a bengala o portal do Circo.
E o barão, um nadinha humilhado:
— À falta de outra coisa... — E depois, para a esposa de Henrique: — Como está vosselência, minha senhora?
— Eu bem. E a Elvira?
Quase ao mesmo tempo, Henrique perguntava:
— Há cá hoje algum trabalho novo?
— Não, — disse o barão; — isto foi por não termos para onde ir.
— E então vens esperar os teus amigos para este lado?
— Sim, bem vês; aqui, longe do apertão, vejo melhor quando eles chegam.
— Pois nós vamos à Baixa. A Leonor anda há dias para fazer umas compras... Aproveitamos hoje, que me apanhou mais desembaraçado.
— Imagine, barão, — acudiu, num abandono íntimo, D. Leonor, — os pequenos estão sem ter que calçar; eu também preciso umas miudezas; e depois de amanhã casa-se aquela minha criada, a Joaquina, que me pediu para ser madrinha do casamento, e eu tenho de lhe dar alguma coisa.
— Muito louvável, minha senhora, muito louvável... — apoiou o barão, já outra vez empolgado pelas degenerescências do sangue, e fixando com avidez um efebo que vira despontar das bandas do Passeio.
O amigo convidou, todo afável:
— Vem daí connosco!
— Ó menino, não posso, bem vês. Combinámos...
Desculpem-me... E daí, talvez tenham chuva. A noite não está boa.
— Toma-se um trem. Isto de hoje não pode passar.
— Adeus, — rematou D. Leonor, estendendo a mão ao barão. — Muitas recomendações à Elvira. E depois de amanhã não faltem!
— Por modo nenhum! — corroborou Henrique, apertando também a mão ao amigo. — Adeus... Olha que o espetáculo já começou.
Efetivamente, nas imediações do Circo rareava o público e o pejamento da rua desaparecera. Na frontaria farrapenta e mesquinha daquele barracão verdenegro, os dois óculos de venda dos bilhetes, agora a descoberto, fulguravam como olhos de ciclopes, quentes e vermelhos. O noroeste frígido recalcava as lufadas de ar quente, no portal escancarado. Vinham perder-se dilatadamente na aspereza húmida da noite as últimas sonoridades metálicas de um galope cediço. Um estalo de chicote vibrava branco, de vez em quando. O barão, atraído pela sensualidade do...




