Caminha / Nemo | Romancistas Essenciais - Adolfo Caminha | E-Book | www.sack.de
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E-Book, Portuguese, Band 9, 200 Seiten

Reihe: Romancistas Essenciais

Caminha / Nemo Romancistas Essenciais - Adolfo Caminha


1. Auflage 2020
ISBN: 978-3-96858-334-1
Verlag: Tacet Books
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark

E-Book, Portuguese, Band 9, 200 Seiten

Reihe: Romancistas Essenciais

ISBN: 978-3-96858-334-1
Verlag: Tacet Books
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark



Na coleção Romancistas Essenciais o crítico August Nemo apresenta autores que fazem parte da história da literatura em língua portuguesa. Neste volume temos Adolfo Caminha,um escritor brasileiro, um dos principais autores do Naturalismo no Brasil.Sua obra densa, trágica e pouco apreciada na época, é repleta de descrições de perversões e crimes. Não deixe de conferir os demais volumes desta série! Essa obra inclui: - A Normalista. - O Bom Crioulo.

Adolfo Ferreira dos Santos Caminha (Aracati, 29 de maio de 1867 Rio de Janeiro, 1 de janeiro de 1897), foi um escritor brasileiro, um dos principais autores do Naturalismo no Brasil.
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I


João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, há anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela, cor de açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e de onde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité. Era amanuense, amigado, e gostava de jogar víspora em família aos domingos.

Nessa noite estavam reunidas as pessoas do costume. Ao centro da sala, em torno de uma mesa coberta com um pano xadrez, à luz parca de um candeeiro de louça esfumado, em forma de abajur, corriam os olhos sobre as velhas coleções desbotadas, enquanto uma voz fina de mulher flauteava arrastando as sílabas numa cadência morosa: — Vin...te e quatro! Sessen...ta e nove!... Cinqüen...ta e seis!...

Havia um silêncio morno e concentrado em que destacava o rolar abafado das pedras no saquinho da baeta verde.

A sala era estreita, sem teto, chão de tijolo, com duas portas para o interior da casa, paredes escorridas pedindo uma caiação geral. À direita, defronte da janela, dormia um velho piano de aspecto pobre, encimado por um espelho não menos gasto. O resto da mobília compunha-se de algumas cadeiras, um sofá entre as duas portas do fundo, a mesa do centro, e uma espécie de console, colocada à esquerda, onde pousavam dois jarros com flores artificiais.

De onde em onde zunia o falsete do amanuense:

— Quadra! Ou caçoava: — Os anos de Cristo!... Os óculos do Padre Eterno!

Risadinhas explodiam a espaços, gostosas, indiscretas — uma pilhéria ricocheteava nos quatro ângulos da mesa.

— É boa! É boa! fazia João da Mata erguendo a cabeça, mostrando a dentuça.

Depois voltava o silêncio, e a voz fina de mulher continuava a cantar os números solenemente.

— Víspora! saltou de repente um rapazola de óculos, bigodinho fino, flor na botoeira do fraque de casimira clara.

Toda gente o conhecia — era o Zuza, quintanista de direito, filho do coronel Souza Nunes.

— Podem conferir, disse erguendo-se, risonho — segunda linha.

E estendeu o braço, passando o cartão para o amanuense.

— Não desmarquem, não desmarquem, recomendou este espalmando a mão. Pode ter sido engano. Errare humanum est...

Houve um ligeiro sussurro de vozes e de caroços rolando sobre a mesa com um surdo ruído de contas desfiadas. Todos desfizeram as marcações.

Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó de fazenda parda sobre a camisa de meia, costas para a rua.

À direita mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos, metida num casaco frouxo de rendas, cabelo penteado em cocó, estampa insinuante, bons dentes: era a mulher do amanuense, que passava por sua legítima esposa não obstante as insinuações malévolas da alcovitice vilã que entrevira escândalos na vida privada de D. Terezinha. Contudo, era tida em conta de excelente dona-de-casa, honesta, dizendo-se relacionada com as principais famílias de Fortaleza.

Ninguém ousava mesmo dirigir-lhe um gracejo de mau gosto, uma pilhéria calculada. Inventava-se — calúnias do populacho — que se correspondia ocultamente com o presidente da província. Ela, porém, gabava, batendo no peito com orgulho, que tinha uma vida limpa, graças a Deus; que isso de patifarias não lhe entrava em casa, não, mas era o mesmo. Estava ali o Janjão que não a deixava mentir.

Ao pé de D. Terezinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de João, uma rapariga muito nova, com um belo arzinho de noviça, morena-clara, olhos cor de azeitonas, carnes rijas, e cuja atenção volvia-se insistentemente para o Zuza.

As outras pessoas eram também da intimidade: o Loureiro, guarda-livros da firma Carvalho & Cia., o Dr. Mendes, juiz municipal, mais a senhora, a Lídia Campelo, filha da viúva Campelo, e o estudante. Às vezes ia mais gente e o víspora prolongava-se até meia-noite.

João da Mata era um sujeito esgrouvinhado, esguio e alto, carão magro de tísico, com uma cor hepática denunciando vícios de sangue, pouco cabelo, óculos escuros através dos quais boliam dois olhos miúdos e vesgos. Usava pêra e bigode ralo caindo sobre os beiços, tesos como fios de arame; a testa ampla confundia-se com a meia calva reluzente. Falava depressa, com um sotaque abemolado, gesticulando bruscamente, e, quando ria, punha em evidência a medonha dentuça postiça. Noutros tempos fora mestre-escola no sertão da província, de onde se mudara para a capital por conveniências particulares. Era então simplesmente o professor Gadelha, o terror dos estudantes de gramática. O sertão foi-lhe aborrecendo; estava cansado de ensinar a meninos, era preciso fazer pela vida noutro meio mais vasto onde as suas qualidades, boas ou más, fossem aquilatadas com justiça. Estava perdendo-se, inutilizando-se e fossilizando-se, por assim dizer, entre um vigário seboso e pernóstico e um delegado de polícia ignorante: — “Não era um águia, um Abílio Borges, um Macedo... mas reconhecia que também não era burro. Até podia fazer figura em Fortaleza.”

E abalou com tanta felicidade que não tardou ser nomeado comissário de socorros ao tempo da grande seca de 77, dois anos depois de sua chegada à capital. Desde logo tornou-se conhecido, suas façanhas corriam impressas nos pasquins domingueiros. De uma feita escapou milagrosamente de ser preso por crime de defloramento numa menor, criada do Dr. Moraes e Silva; de outra feita apanhou de rebenque na cara por haver caluniado um capitão de infantaria propalando uma infâmia. Toda a gente o conhecia muitíssimo bem, por sinal tinha uma cicatriz oblonga e funda na têmpora esquerda, e não largava o mau vezo de roer o canto das unhas.

Depois da seca entregou-se de corpo e alma à polícia, à intriguinha partidária, à rabulice, à cabala eleitoral, à chicana. Toda a vez que se anunciava um pleito, punha em jogo as mil e uma sutilezas que só o seu espírito sagaz podia conceber. Ninguém como ele sabia copiar uma chapa em letra firme e aprumada. Aquilo a pena cantava no papel que nem o lápis de um taquígrafo. E que letra, que esplêndido talhe! Dir-se-ia traçada a nanquim, delicadamente, com a paciência de um chinês. Ninguém como ele sabia tirar proveito duma vitória alcançada pelo partido. Discutia, falava alto, berrava... impunha-se!

— Extraordinário homem! diziam os chefes políticos; destes é que nós precisamos, destes é que precisa o partido.

Mas João sabia vender caro seu peixe. Fazia política por uma espécie de ambição egoísta, visando sempre tirar resultados positivos de suas artimanhas, embora com prejuízo de alguém.

Dinheiro é o que ele queria, não lhe fossem falar em política sem interesse pessoal.

“— Histórias, homem, histórias! Isso de patriotismo é uma patranha, um rótulo falso! O que se quer é dinheiro, o santo dinheirinho, a mamata. Qual pátria, qual nada! Patacoadas!” Ele, João, trabalhava, lá isso era inegável: dava o seu voto, cabalava, servia de testa-de-ferro, mas... tivessem paciência — era mão pra lá mão para cá... Porque — argumentava — a política é uma especulação torpe como outra qualquer, como a de comprar e vender couros de bode na praia, a mesmíssima coisa; pois não é? Pra tudo é preciso jeito, muito jeitinho...

Agora, porém, andava meio retraído, dava o seu voto, calado, e — passe muito bem! — A política só lhe trouxera desenganos e inimigos. Não estava mais para servir de degrau a figurão algum. Que se fomentassem! É boa! Trabalhara que nem besta de carga para no fim de contas ganhar o quê? Um pingue lugar de amanuense? Um miserável emprego que se anda oferecendo aí a qualquer vagabundo? Decididamente não o pilhavam mais para a canga... Estava experimentado, meus senhores, experimentadíssimo.

E agora, com efeito, ninguém o via mais nas redações, entre os jornalistas da terra, a esbravejar contra os adversários, nem nos cafés, quanto mais em dia de eleição, sentado, como dantes, na sua cadeira de mesário, carrancudo, circunspecto, a contar votos, a lavrar atas. Estava outro homem, completamente outro: amigo de casa, vivendo para si, com poucas amizades, metódico, econômico, às voltas com a sua atrabílis crônica, sem ambições, sem dívidas.

A sua grande paixão, o seu fraco era a Maria do Carmo, a menina de seus olhos, a afilhadinha; queria um bem extraordinário à rapariga e tratava-a com um carinho lânguido de amante apaixonado no supremo grau do amor incondicional. Criara-a desde pequena, era como se fosse pai, tinha direitos sobre ela; podia mesmo beijá-la — sem malícia, já se deixa ver — nas faces, na testa, nos braços e até, por que não? na boca.

Às vezes, quando Maria voltava da Escola Normal, ele mandava-a sentar-se na rede, a seu lado. A pequena guardava os livros e lá ia, sem fazer beiço, deitar-se com o padrinho, amarfanhando o rico vestidinho de cretone passado a ferro pela manhã. Obedecia-lhe cegamente, nunca lhe dissera uma palavra áspera; ao contrário, — eram carinhos, cafunés no alto da cabeça, cócegas, histórias de alma do outro mundo e gracinhas para ele rir... Tinha sempre um sorriso fresco e luminoso para “o seu padrinho”. E João da Mata sentia um bem-estar incomparável, uma delícia, um gozo inefável ante aquele esplêndido tipo de cearense morena, olhos cor de azeitona onde boiava uma névoa de ingenuidade, cabelos compridos descendo até a altura dos quadris, desmanchando-se em ondas de seda finíssima... Quantas vezes, quantas!...



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