Curzio | A Marca Dos Waunir | E-Book | www.sack.de
E-Book

E-Book, Portuguese, 572 Seiten

Curzio A Marca Dos Waunir


1. Auflage 2026
ISBN: 978-88-354-8639-8
Verlag: Tektime
Format: EPUB
Kopierschutz: 0 - No protection

E-Book, Portuguese, 572 Seiten

ISBN: 978-88-354-8639-8
Verlag: Tektime
Format: EPUB
Kopierschutz: 0 - No protection



Desgraças funestas continuam a assolar o Reino de Sawhi'raj. O destino do reino está agora nas mãos de Ashni, que sabe não poder escapar ao grande sacrifício imposto pela Lei Soberana. Porém, numa noite angustiante, desaparece misteriosamente, tragada pela escuridão.
Kiran, filho de um prospector de gemas, é acusado de a ter raptado, quando na verdade é o único capaz de a salvar. Antes disso, porém, terá de enfrentar uma verdade que nenhum homem pode conhecer. Uma sucessão de conspirações, traições e fingimentos colocará em risco os acordos de Kailasa e a paz entre os deuses.
Para os amantes da fantasia épica, este romance oferece uma reinterpretação original dos mitos relacionados com a origem da humanidade e com o papel desempenhado pelos 'deuses' na história humana. A obra procura estabelecer um fio condutor entre os elementos recorrentes das tradições mitológicas de diferentes povos, inserindo-os num contexto sociopolítico que marcou o nascimento das primeiras civilizações.

Todo o objeto parecia ser feito de metal, tão polido em alguns pontos que mais parecia um espelho. Na superfície, a luz criava reflexos como se fosse vidro. Ou melhor, alabastro. Era impossível definir-lhe a cor. Parecia prata resplandecente, mas aqui e ali, talvez pelos raios do sol, talvez pela iridescência, dava a impressão de ser ouro.
Do pináculo situado no topo, no centro de toda aquela imensa estrutura, saía uma substância transparente, translúcida, que emitia pequenos lampejos flamejantes e se expandia em círculos. Uma espécie de grande nuvem giratória, tal como a própria base da estrutura.
- Bem-vindo a Kailasa. A fortaleza. Chamamos-lhe assim porque é a sede dos nossos regentes, mas sobretudo porque é inviolável. Só alguns têm autorização para entrar e o acesso é interdito aos homens.

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Capítulo

2

«O demónio Nan’tuka erguia-se possante diante dele, com a pele azulada, áspera como se estivesse coberta de escamas opacas, a testa alta e franzida e a boca escancarada, mostrando dentes aguçados e caninos retorcidos que se curvavam ameaçadoramente para cima. Um rugido rouco saiu-lhe da garganta quando tentou agarrar Anjaneya, mas a sua ágil forma de homem-símio permitiu-lhe saltar para longe, enquanto o demónio ainda tentava fechar as enormes mãos para o prender. Com um salto fulminante, escapou àquela morsa. O sangue dos Deuses corria-lhe nas veias e, num instante, Anjaneya trepou pelo corpo do demónio como se aquela massa escamosa fosse uma árvore. Depois, já no alto, agarrou-se à parte de trás da sua cabeça e daí desferiu um golpe contra os olhos de Nan’tuka, que num instante gritou e contorceu-se, cego por...»

Enquanto prosseguia a leitura do rolo, Ashni entreviu Morius, imóvel um pouco mais atrás para não interromper a narração. Apesar da sua condição de Jhaying Phraya, cres-cera como se fosse uma neta para ele, e era esse o afeto que os unia. Durante anos seguira-o como uma sombra curiosa pela sala dos códigos, pelas estrebarias e nas caçadas, e ele satisfizera sempre a sua inata vontade de observar e aprender tudo o que podia.

Conhecia-o demasiado bem para não perceber o turbilhão de emoções que nele se agitava, misturadas com ansiedade e resignação.

— Jhaying, porque vos interrompestes? Continuai! — disse Morius.

— Sim, exatamente! Logo agora que Anjaneya tinha encontrado a rainha! Gostava de saber se consegue libertá-la no fim! — exclamou uma das criadas.

Ashni terminara a leitura e sorria para as amigas, ansiosas por conhecer o resto da história.

— Desculpai-me, mas agora tenho de ir à aldeia. Qual de vós vem comigo hoje? — perguntou Ashni, enquanto se levantava para endireitar as pregas bordadas do longo vestido claro e acomodar as suaves madeixas do cabelo. Mintaka aproximou-se para a ajudar a apertar as longas fitas cruzadas nas costas.

As criadas olharam para ela com risinhos cúmplices, cobrindo os lábios com as pontas dos dedos. Ashni começou também a rir alegremente, parecendo iluminar-se com uma luz impalpável.

Todas se puseram de pé, abrindo-se em leque para dar passagem ao Conselheiro Brethach.

— Jhaying, perdoai-me por vos incomodar, mas o vosso pai gostaria que fôsseis aos seus aposentos.

A jovem perscrutou-lhe o olhar, enquanto o velho Morius fazia o possível por manter a expressão mais neutra que conseguia. Os olhos imóveis, as rugas serenas, a respiração lenta, subtil e demasiado controlada. Mintaka espreitou discretamente por detrás do ombro de Ashni para observar o rosto de Morius e lançou um breve olhar à prima.

— O meu pai está bem? — perguntou Ashni.

— Absolutamente, Jhaying. Não vos preocupeis. Creio que deseja apenas pedir-vos algo antes que vos ocupeis de outros afazeres com as vossas criadas — respondeu num tom tranquilizador, sorrindo cordialmente para todas.

Era um diplomata habilíssimo, o bom Brethach, e Ashni sabia-o bem. Desviou o olhar dele e, sorrindo para as raparigas à sua volta, fez-lhes sinal para que a seguissem.

— Vinde. Podeis esperar por mim nos meus aposentos. Preparai-me, por favor, o vestido azul. Juntar-me-ei a vós dentro de pouco tempo. Obrigada, Morius. Vou já ter com o meu pai.

O Conselheiro inclinou-se elegantemente, separou as mãos e seguiu pela alameda arborizada.

Mintaka aproximou-se dela e sussurrou:

— Queres que vá contigo? Achas que ele suspeita de alguma coisa?

— Obrigada, Mintaka. Não creio que suspeite de nada. Não vejo como poderia... embora não possa negar que o tenho achado pensativo nestes últimos dias — respondeu Ashni num fio de voz, mantendo os olhos fixos em Morius, que se afastava.

— Sim... um pouco esquivo, diria eu. Também reparei nisso.

— Seja como for, tenho de ir sozinha. Desconfiaria ainda mais se nos visse juntas. Pode tratar-se de qualquer coisa, por isso é melhor fingirmos que nada se passa.

Mintaka anuiu, pousando delicadamente a mão alva sobre o braço da prima. Depois separaram-se e Ashni seguiu a passo rápido em direção ao pórtico que dava acesso ao jardim arborizado.

Atrás dela, Meiwen, Carys e as outras conversavam em voz baixa. Tinham aquele ar leve e despreocupado que alegrava os seus dias e que, desde a morte do irmão, a ajudara a preencher o vazio deixado pelas tardes perdidas passadas a brincar com ele, correndo um atrás do outro pelo jardim ou pelas salas do palácio, nas primeiras descobertas e nas primeiras grandes aventuras que haviam vivido juntos.

Mintaka, sua prima, ficara um pouco mais atrás do grupo, seguindo-as com mais calma. Chegaram à porta dos seus aposentos, e Ashni dirigiu-se pelo corredor que conduzia aos aposentos do pai, fixando o olhar nas três altas janelas rendilhadas que, ao fundo, inundavam de luz todo o espaço envolvente e as paredes de madeira. Procurava conforto no jogo de luzes coloridas que atravessava os panejamentos das janelas, como se toda a sua vida, bem como a daqueles que amava, viesse um dia a ser inundada por um esplêndido arco-íris capaz de sarar os sofrimentos do reino e as feridas do seu pai.

Conhecia bem essas feridas. Tinha-as sentido em silêncio na própria pele e o coração chorava pelas dores que não podia apagar. Mas agora não queria renunciar ao único motivo de felicidade que iluminava a sua vida. Pelo contrário, desejava que todos vissem, sentissem e partilhassem daquela felicidade e daquela luz transbordante que, por si só, poderia curar aquele mal invisível de que o pai falava. Tinha a certeza disso, mas não podia dizê-lo a ninguém. Podia apenas guardá-lo em segredo.

Bateu à pesada porta de carvalho. Era a respiração contida de quem espera que aquele seja um dia como qualquer outro, mas sente um frio subtil na pele a sussurrar-lhe que não será.

— Entra...!

Ashni empurrou a pesada porta de madeira e entrou. O pai, de pé junto da janela, contemplava o exterior. A barba grisalha, marcada pelos anos, e a elevada estatura conferiam-lhe aquele ar de autoridade sob o qual escondia um afeto infinito de pai generoso e amoroso. Com orgulho, reparou que envergava o casaco de brocado verde-água que ela própria bordara com sedas coloridas e fios de ouro e de prata.

— Dizei-me, pai. Mandastes chamar-me.

A voz de Ashni soava tranquila, ocultando a subtil ansiedade que lhe apertava a garganta.

— Minha filha, sentemo-nos, por favor. Vem. Mandei trazer chá branco. Sirvamo-lo e sentemo-nos.

A jovem começou a servir o chá com extremo cuidado, inspirando o vapor quente e perfumado que se elevava enquanto o líquido fumegante enchia as chávenas. Cerrou os olhos por um breve instante. Manteve as mãos imóveis em redor do tabuleiro para recuperar a serenidade. Depois voltou-se e, com uma calma cuidadosamente controlada, pousou-o sobre a pequena mesa diante da poltrona onde o pai se sentara. Entregou-lhe delicadamente uma chávena, pegou na outra e sentou-se na extremidade da poltrona em frente.

Nenhum dos dois começara ainda a saborear o chá. Limitavam-se a observar-se em silêncio, desviando depois o olhar para o líquido claro que ondulava suavemente nas chávenas.

— Ashni... — começou o pai, após um longo suspiro. — Gostaria que fosses sincera comigo. Sabes quantas desventuras enfrentámos. Restamos apenas nós os dois. O reino precisa de ambos e sei que compreendes a importância do que estou prestes a dizer-te.

— Certamente, pai. Quanto ao reino, não tendes motivo para recear. Quando chegar o momento, tomarei as decisões mais acertadas para o proteger e assegurar a sua continuidade. Mas vós estais bem, pai? Porque falais disto precisamente agora?

— Porque, Ashni, as tuas decisões começam neste preciso momento. Se verdadeiramente amas o reino e desejas preservar tudo aquilo por que lutei, não podes esperar pelo futuro e colocar o reino em perigo.

O seu tom tornara-se mais grave e profundo.

— Pai, não tenho qualquer intenção de pôr o reino em perigo, nem de vos causar a menor desilusão — respondeu, apertando delicadamente a asa da chávena entre os dedos finos.

— Não se trata de desilusões. Sei que a tua mãe nos observa de algum lugar no Céu e ninguém mais do que ela sabe quanto desejaria ver-te feliz. Mas, infelizmente, a felicidade conquista-se através do sacrifício, porque essa é a vida que nos foi destinada. E agora chegou a tua vez.

— Que quereis dizer, pai? — perguntou num tom firme, embora profundamente inquieto.

— Minha filha... — Fez uma pausa e respirou lentamente. — Que tens para me dizer sobre Kiran Alhatabek?

Um calafrio percorreu as costas de Ashni, como se uma lâmina finíssima lhe rasgasse a delicada pele branca. Ficou imóvel, susteve a respiração e concentrou todas as suas forças para esconder o gelo de medo que acabara de sentir.

— Kiran sempre foi um grande amigo da nossa família, pai. Bem o sabeis. Crescemos juntos, e as recordações mais belas remontam aos tempos em que eu e o meu irmão brincávamos com ele junto ao rio, atirando pedras à água, enquanto a mãe, de vez em quando, nos levava doces de fruta que comíamos enquanto nos contava histórias.

— Nessa altura éreis crianças. Depois crescestes. O teu irmão e a tua mãe já partiram há muitos anos. Mas a vossa amizade permaneceu.

— Ele foi como um irmão para mim desde a morte de Alnilom. Ajudou-me a superar uma perda imensa. Recordais-vos de quanto éramos unidos, o meu irmão e...



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