Kallentoft | SANGUE VERMELHO EM CAMPO DE NEVE | E-Book | www.sack.de
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E-Book, Portuguese, 488 Seiten

Kallentoft SANGUE VERMELHO EM CAMPO DE NEVE


1. Auflage 2010
ISBN: 978-972-20-5011-1
Verlag: D. QUIXOTE
Format: EPUB
Kopierschutz: Adobe DRM (»Systemvoraussetzungen)

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ISBN: 978-972-20-5011-1
Verlag: D. QUIXOTE
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No Inverno mais frio de que há memória na Suécia, um homem, nu e obeso é encontrado pendurado num carvalho solitário no meio das ventosas planícies de Ostergotland. O cadáver apresenta sinais evidentes de violência mas, em volta, a jovem e ambiciosa inspectora Malin Fors só pode constatar como a neve cobriu e ocultou para sempre as eventuais pistas deixadas pelo assassino. A única certeza é que o macabro achado vai abalar a vida tranquila da pequena comunidade de província e trazer de volta terríveis segredos há muito escondidos. Sangue Vermelho em Campo de Neve - Inverno revela aos leitores portugueses Mons Kallentoft, um autor brilhante que, com este livro, ocupou de imediato os primeiros lugares nos top de vendas dos países nórdicos e está a ser traduzido pelas mais importantes editoras na Europa.

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CAPÍTULO 2

OS ACORDES DE UM CORAL ALEMÃO ressoam dentro do carro que Zacharias «Zeke» Martinsson guia com segurança ao passar por um dos extremos da área de vivendas denominada Hjulsbro. Pela janela lateral, consegue ver os beirais vermelhos e verdes das enormes casas. Os beirais pintados estão carregados de gelo e as árvores, que conseguiram crescer majestosas durante os quase trinta anos que se passaram desde que as casas foram construídas, transmitem uma imagem de fragilidade e de desgaste pela exposição ao frio cortante, mas ainda assim todas as construções aparentam estar notavelmente bem conservadas e aquecidas, de quem vive muito bem.

Gueto de médicos, pensa Zeke. É essa a designação que se lhes dá na cidade. É, sem dúvida, uma área popular entre os médicos que trabalham no hospital. Exactamente em frente, do outro lado da grande via, a Stureforsleden, atrás de um parque de estacionamento, estão os prédios brancos, relativamente baixos, de uma outra área, a Ekholmen, com as casas de alguns milhares de imigrantes e de descendentes já nascidos na Suécia, bem menos afortunados.

Malin pareceu-me cansada, quase sonolenta. Talvez tivesse dormido mal. Talvez eu lhe pergunte se lhe aconteceu alguma coisa. Mas não. É melhor calar-me. Ela costuma ficar zangada quando lhe perguntamos como se sente.

Zeke tenta manter o pensamento longe do problema que em breve vão ter de enfrentar. Nem sequer tenta imaginar como se vai apresentar a situação. Vão saber em breve. Porém, os homens da patrulha pareciam impressionados e isso não era de espantar, atendendo ao cenário que descreveram. Com os anos de serviço, já estava habituado a retardar, a adiar tomar conhecimento de factos horrorosos, mesmo quando estes o atingiam directamente.

Johannelund era o nome da localidade por onde passava agora.

Os campos de futebol onde costumavam jogar as equipas de miúdos estavam cobertos de neve. Era lá que jogava Martin, na equipa da Saab, antes de decidir dedicar-se totalmente ao hóquei no gelo. Nunca o encorajei quando ele jogava futebol, pensa Zeke. E agora, quando as coisas no hóquei começam a correr muito bem ao meu filho, não aguento ter de ir ver os jogos. Ontem à noite foi uma tortura. Apesar de terem ganho à equipa do Färjestad por quatro a três. Nunca gostei deste jogo, por muito que queira. Um jogo para idiotas valentes.

Ou gostamos de uma coisa, pensa Zeke, ou não. Eu gosto do meu coral.

Ensaiam duas noites por semana no Da Capo, o grupo coral a que ele se juntou há uns dez anos, depois de arranjar coragem para lhes fazer uma visita e apresentar-se. Concertos, talvez uma vez por mês, uma viagem por ano para algum festival.

Zeke gosta da liberalidade no convívio com os outros elementos do coro, ninguém se importa com o que cada um faz. Encontram-se, conversam e cantam. Por vezes, quando está com os colegas, absorto nos cânticos numa qualquer igreja iluminada, sente a possibilidade de realmente pertencer a uma organização, de fazer parte de algo que é maior do que a sua própria e insignificante pessoa. É como se nos cânticos houvesse uma unidade e uma alegria espontâneas, um domínio em que não pode haver lugar para o mal.

Isso, porque é preciso manter o mal sob controlo, o mais possível.

Neste momento, estão a caminho do mal. Com certeza absoluta.

Neste momento, a localidade é Folkungavallen.

O próximo passo na hierarquia do futebol. O campo de futebol foi negligenciado e merece ser renovado. A equipa feminina do Clube Linköping FF é uma das melhores do país. Um grupo de mulheres, muitas a jogar na selecção nacional, que nunca conseguiu entusiasmar os habitantes da cidade. A seguir, a piscina. As novas casas, perto do silo de estacionamento. Vira para outra rua, a Hamngatan, e passa por dois centros comerciais, o Hemköp e o Åhléns, e depois vê Malin à porta de casa, a tremer de frio. Porque não esperou do lado de dentro?

Ela curva-se para a frente, mas parece, de certa maneira, imperturbável, cruzando os braços contra o corpo, toda ela como que ancorada no solo pelo gelo, na certeza de que esse é o começo de mais um dia em que irá desempenhar o papel para o qual realmente está preparada.

E Malin está preparada, sim, para a investigação policial. Caso cometesse algum delito, eu não iria querê-la no meu encalço, pensa Zeke, ao mesmo tempo que diz em voz baixa:

– Com os diabos, Malin, onde é que este dia nos vai levar?

A música coral com o volume reduzido ao mínimo. Dentro do carro, cem vozes num murmúrio.

O que conta a voz de um ser humano? pensa Malin.

A sua maneira de repercutir, de acentuar os tons graves, de como que a sufocar as palavras a meio da frase.

A voz de Zeke tem uma rouquidão que Malin nunca ouviu noutra pessoa, um tom de humildade construída que desaparece quando ele canta, mas que se torna extraordinariamente acentuada quando fala agora sobre o que aconteceu:

– Vai ser, certamente, um cenário horrível – disse ele, com a voz rouca em que se destacava a sua dicção perfeita. – Foi o que disseram os homens do carro-patrulha ao telefone. Mas também, quando é que não é assim?

– O quê?

– Quando é que não se trata de uma visão horrorosa?

Zeke está sentado ao lado de Malin, ao volante do Volvo, com o olhar bem fixo na estrada gelada, escorregadia.

Os olhos.

Nós confiamos neles. Noventa por cento das impressões que recolhemos do mundo que nos rodeia são-nos dadas pelos olhos. São eles que prestam esse serviço. Aquilo que não vemos, não existe. Quase. Tudo o que possa esconder-se num armário fica de fora. Problema resolvido. Simplesmente.

– Nunca – diz Malin.

Zeke concorda com um aceno da sua cabeça rapada. Assente num pescoço anormalmente longo, o crânio parece não combinar com o seu corpo curto e musculoso. A pele é lisa nas maçãs do rosto.

Do lugar em que está sentada, Malin não consegue ver os olhos dele. Mas confia na sua memória.

Conhece aqueles olhos. Sabe que descansam bem fundo no rosto e que, na maior parte das vezes, ficam quietos. Na sua cor mate, esverdeada, um pouco acinzentada, existe uma luz quase permanente que é a um tempo dura e suave.

Com cinquenta e cinco anos de idade, tem a calma de uma experiência enorme, ao mesmo tempo que, de certa maneira, essa experiência o tornou mais irrequieto, implacável. Ou como ele próprio lhe disse uma vez, depois de muita cerveja e de muita aguardente, numa festa de Natal: «Somos nós contra eles, Malin. Por vezes, por muito lamentável que isso possa soar, temos de usar os métodos deles. É a única linguagem que essa espécie de gente realmente entende.» E disse-o sem satisfação nem amargura. Foi apenas uma constatação.

Zeke não deixa transparecer a inquietação, mas ela conhece-o muito bem. Como deve sofrer durante os jogos do filho Martin.

«…um cenário horrível.»

Passaram onze minutos entre o telefonema de Zeke e o momento em que chegou para apanhar Malin. A curta constatação dele quando ela se sentou no carro fez com que o seu corpo se encolhesse ainda mais, ainda que, contra a sua vontade, a deixasse extraordinariamente animada.

Ver Linköping pela janela do carro.

A cidade esconde a sua pequenez de todas as formas, o verniz da sua história cada vez mais fino.

Aquela que antes era uma cidade de fábricas e de intenso comércio entre camponeses tornou-se rapidamente uma cidade universitária. As fábricas foram em grande parte desactivadas. Os habitantes mais instruídos fizeram pressão. Optaram pela educação, nas escolas, na universidade, e logo nasceu a cidade mais fútil do país, com os habitantes mais extraordinários do país.

Linköping.

A cidade dos anos quarenta, com académicos inseguros e um passado para varrer para debaixo do tapete a qualquer preço. Um povo que queria ser elegante e vestir-se bem, com as melhores roupas, para ir almoçar ao centro, aos sábados.

Linköping.

Uma cidade maravilhosa para os doentes.

E melhor ainda para as vítimas de queimaduras.

No hospital da universidade existe a melhor unidade de queimados do país. Malin esteve lá uma vez, para resolver um caso, vestida de branco da cabeça aos pés. Os doentes conscientes gritavam de dor ou gemiam, os inconscientes sonhavam em ser dispensados de acordar.

Linköping.

O domínio dos aviadores. A morada da indústria de aviação. Os caças, tal qual besouros, passam a zumbir pelo céu. Barris, Dragões, Raios e Sins voam num infindável crescendo e, de repente, há novos-ricos a...



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