E-Book, Portuguese, Band 6, 112 Seiten
Lobato Aritmética da Emília
1. Auflage 2022
ISBN: 978-87-26-94972-8
Verlag: Saga Egmont
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark
E-Book, Portuguese, Band 6, 112 Seiten
Reihe: Coleção Sítio do Picapau Amarelo
ISBN: 978-87-26-94972-8
Verlag: Saga Egmont
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark
Monteiro Lobato (1882-1948) foi um escritor, ativista, diretor e produtor brasileiro. Autor de importantes traduções inéditas e editor revolucionário na sua época, Lobato é mais conhecido por ser o precursor da literatura infantil brasileira. A coletânea 'Urupês' é considerada sua obra-prima visto a perspectiva crítica e realista presente na obra, mas é a coleção de histórias infantis 'Sítio do Picapau Amarelo' que conquistou a imaginação dos brasileiros através de gerações. Em suas histórias para crianças, Lobato mistura habilmente aspectos do folclore brasileiro com histórias da literatura universal.As fantásticas aventuras de Narizinho, Pedrinho e Emília continuam inspirando as mais diversas produções culturais e artísticas, incluindo a afamada série de televisão 'Sítio do Picapau Amarelo' produzida pela rede Globo em 2001, estrelando Isabelle Drummond e Lara Rodrigues.
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Manobras dos números
Terminada a apresentação dos artistas da Aritmética, o Visconde começou a explicar como é que eles manobram lá entre si, de jeito a indicar de um modo fácil todas as quantidades que existem, por menores ou maiores que sejam. E o respeitável público viu que só com aqueles dez artistas podiam formar-se números enormíssimos, capazes até de enumerar todas as estrelas do céu e todos os peixinhos do mar.
Com um 1 na frente de outro 1 formava-se o 11; com o 1 e o 2 formava-se o 12; com o 1 e o 3 formava-se o 13 – e do mesmo modo o 14, o 15, o 16,o l7,o 18,o 19.
– Depois – disse o Visconde – começa a casa do 20, que é um 2 com um 0 em seguida. E assim temos o 21, o 22, o 23, o 24, etc., até o 29. Depois começa a casa do 30, e temos, a seguir, o 31, o 32, o 33, o 34, etc., até o 39. Depois começa a casa do 40, e a do 50, do 60, do 70, do 80 e do 90. O 90 vai indo – 91, 92, 93, 94, etc., até 100.
– Isso eu já sabia antes de nascer – disse Narizinho. – Depois do 100 vem o 101, o 102, o 103, etc. Adiante!
– Bom – disse o Visconde –, nesse caso vou explicar outra coisa. Vou explicar que 10 unidades formam uma Dezena. Dez Dezenas formam uma Centena. Dez Centenas formam um Milhar. Dez Milhares formam uma Dezena de Milhar. Dez Dezenas de Milhar formam uma Centena de Milhar. Dez Centenas de Milhar formam um Milhão. Vou escrever um número e dividir ás casas.
– Que casas? – indagou Emília.
– As casas das Unidades, das Dezenas, das Centenas, etc.
E o Visconde escreveu no chão este número:
845768963524637
Depois desenhou uma casinha para as Unidades, outra para os Milhares, outra para os Milhões, outra para os Bilhões e outra para os Trilhões, assim:
– Na casa das Unidades – explicou ele – há três janelinhas. A primeira, ocupada pelo 7, é a janela das Unidades Simples; a segunda, ocupada pelo 3, é a janela das Dezenas de Unidade; a terceira, ocupada pelo 6, é a janela das Centenas de Unidade.
Depois temos a casa vizinha, onde moram os Milhares. A primeira janela, ocupada pelo 4, é a janela dos Milhares Simples; a segunda, ocupada pelo 2, é a janela das Dezenas de Milhar; a terceira, ocupada pelo 5, é a janela das Centenas de Milhar. Depois temos a terceira casa, onde moram os Milhões…
– Milhão é milho grande. Logo, a casa dos Milhões é o paiol! – gritou Emília, que não perdia ocasião de fazer graça.
Todos riram-se e o Visconde continuou:
– A primeira janela, ocupada pelo 3, é a janela dos Milhões Simples; a segunda, ocupada pelo 6, é a janela das Dezenas de Milhão; a terceira, ocupada pelo 9, é a janela das Centenas de Milhão.
Depois temos a quarta casa, onde moram os Bilhões. Na primeira janela ficam os Bilhões Simples; na segunda ficam as Dezenas de Bilhão e na terceira ficam as Centenas de Bilhão.
A quinta casa é a dos Trilhões. Há os Trilhões Simples, as Dezenas de Trilhão e as Centenas de Trilhão. Depois vem a casa dos Quatrilhões, dos Quintilhões, dos Sextilhões, dos Setilhões, dos Octilhões, dos Nonilhões, etc.
– Olhem como o Quindim ficou alegre! – observou a boneca. – De tanto “leões” que ouviu falar, lembrou-se da África e está sorrindo…
O Visconde não achou graça; limitou-se a dar ordem aos artistas árabes para se colocarem em posição e formarem um número bem grande. Os algarismos obedeceram, formando este número:
543784932141357362439567435932143
– Agora – disse ele –, em vez de fazer as casinhas, vou marcar o lugar das casinhas com uma vírgula4, assim: da direita para a esquerda:
543/784,932,141,357,362,439,567,435,932,143
Isto é para facilitar a leitura do número. Temos aqui as casas das Unidades, dos Milhares, dos Milhões, dos Bilhões, dos Trilhões, dos Quatrilhões, dos Quintilhões, dos Sextilhões, dos Setilhões, dos Octilhões e a dos Nonilhões. A lá do fim é a das Unidades e a daqui do começo é a dos Nonilhões. Vamos ver quem lê este número sem engasgar pelo caminho – concluiu ele, certo de que ninguém era capaz. Mas a espertíssima Emília leu certinho.
– Quinhentos e quarenta e três Nonilhões, setecentos e oitenta e quatro Octilhões, novecentos e trinta e dois Setilhões, cento e quarenta e um Sextilhões, trezentos e cinquenta e sete Quintilhões, trezentos e sessenta e dois Quatrilhões, quatrocentos e trinta e nove Trilhões, quinhentos e sessenta e sete Bilhões, quatrocentos e trinta e cinco Milhões, novecentos e trinta e dois Milhares e cento e quarenta e três Unidades5. Uf!
Foi um sucesso a leitura da Emília. Dona Benta até tirou os óculos para esfregar os olhos, de tão assombrada. Quindim, que estava cochilando, ergueu a cabeça como quem diz mentalmente “Sim, senhora!”. Rabicó piscou sete vezes e Pedrinho mordeu os lábios de inveja, porque ele não era capaz de ler de uma assentada, sem um só erro, aquele número tão grande.
Emília ficou toda ganjenta, com os olhinhos acesos.
Em seguida o Visconde explicou o que era Regra.
– Regra é o modo sempre igual de se fazer uma coisa – disse ele. – Temos regras para tudo e também para ler os números grandes como este. A Regra aqui é dividi-lo com um espacinho, de três em três algarismos, começando da direita para a esquerda. Vamos ver outro exemplo – e mandou que os algarismos formassem este número:
45365462878
– Venha, Narizinho, separar as casas.
A menina separou os algarismos assim, com espacinhos da direita para a esquerda:
45 365 462 878
– Muito bem. Agora leia.
Narizinho leu imediatamente:
– Quarenta e cinco Bilhões, trezentos e sessenta e cinco Milhões, quatrocentos e sessenta e dois Milhares e oitocentos e setenta e oito Unidades.
– Bravo! – exclamou o Visconde, enquanto a menina botava a língua para a boneca, que não deixou de ficar desapontada de ver que Narizinho lia os números grandes tão bem quanto ela. Mas Emília consolou-se murmurando com cara de pouco-caso que aquele número era uma pulga perto do seu.
Em seguida o Visconde explicou que o serviço principal dos números era indicar as somas de dinheiro, porque o dinheiro é a coisa mais importante que há para os homens.
– Por quê? – perguntou a boneca. – Para mim dinheiro não tem importância nenhuma. Dou o desprezo…
– Para as bonecas não terá, mas para os homens tem muitíssima, porque o dinheiro é uma coisa que se transforma em tudo quanto eles desejam. Se eu tenho um pacote de dinheiro, posso transformá-lo numa casa, numa vaca de leite, num passeio à Europa, num terreno, numa porção de ternos de roupa, numa confeitaria inteira de doces, num automóvel – em tudo quanto eu queira. Daí vêm a importância do dinheiro e a fúria dos homens para apanhar a preciosa substância. Quem tem uma casa, tem uma casa e nada mais; mas quem tem dinheiro, tem o meio de ter tudo quanto imagina. O dinheiro é a única substância mágica que existe. Em vista disso, vou apresentar ao respeitável público a senhora Quantia, que é a dama mais orgulhosa da cidade da Aritmética, pelo fato de só lidar com dinheiro.
Desta vez o Visconde não estalou o chicote, como fizera para chamar os artistas arábicos e romanos, mas entrou nos bastidores e, fazendo mil salamaleques, de lá trouxe pela mão a grande dama.
– Respeitável público! – disse ele comovido. – Tenho a honra de introduzir a ilustríssima senhora Dona Quantia, a grande dama que só lida com dinheiro.
Dona Quantia era um poço de orgulho. Veio de lornhão erguido e cabeça alta, olhando para todos com grande insolência. Estava vestida de uma fazenda feita de notas de 500 cruzeiros e trazia colar, cinto e pulseira de moedas. Em seu peito havia, bordado a fio de ouro, um sinal assim: $, que é o sinal do dinheiro. Toda ela tilintava: tlim, tlim, tlim, tlim.
– Já sei – cochichou Emília ao ouvido da menina. – Essa “Númera” que só lida...




