E-Book, Portuguese, Band 23, 176 Seiten
Lobato Serões de Dona Benta
1. Auflage 2022
ISBN: 978-87-26-94976-6
Verlag: SAGA Egmont
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark
E-Book, Portuguese, Band 23, 176 Seiten
Reihe: Coleção Sítio do Picapau Amarelo
ISBN: 978-87-26-94976-6
Verlag: SAGA Egmont
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark
Monteiro Lobato (1882-1948) foi um escritor, ativista, diretor e produtor brasileiro. Autor de importantes traduções inéditas e editor revolucionário na sua época, Lobato é mais conhecido por ser o precursor da literatura infantil brasileira. A coletânea 'Urupês' é considerada sua obra-prima visto a perspectiva crítica e realista presente na obra, mas é a coleção de histórias infantis 'Sítio do Picapau Amarelo' que conquistou a imaginação dos brasileiros através de gerações. Em suas histórias para crianças, Lobato mistura habilmente aspectos do folclore brasileiro com histórias da literatura universal.As fantásticas aventuras de Narizinho, Pedrinho e Emília continuam inspirando as mais diversas produções culturais e artísticas, incluindo a afamada série de televisão 'Sítio do Picapau Amarelo' produzida pela rede Globo em 2001, estrelando Isabelle Drummond e Lara Rodrigues.
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Comichóes cientificrs
Dona Benta havia notado uma mudança nos meninos depois da abertura do Caraminguá número 1, o primeiro poço de petróleo no Brasil.
Aprenderam um pingo de geologia e ficaram ansiosos por mais ciência.
– Sinto uma comichão no cérebro – disse Pedrinho. – Quero saber coisas. Quero saber tudo quanto há no mundo…
– Muito fácil, meu filho – respondeu Dona Benta. – A ciência está nos livros. Basta que os leia.
– Não é assim, vovó – protestou o menino. – Em geral os livros de ciência falam como se o leitor já soubesse a matéria de que tratam, de maneira que a gente lê e fica na mesma. Tentei ler uma biologia que a senhora tem na estante, mas desanimei. A ciência de que gosto é a falada, a contada pela senhora, clarinha como água do pote, com explicações de tudo quanto a gente não sabe, pensa que sabe, ou sabe mal e mal.
– Outra coisa que não entendo – disse Narizinho – é esse negócio de várias ciências. Se a ciência é o estudo das coisas do mundo, ela devia ser uma só, porque o mundo é um só. Mas vejo física, geologia, química, geometria, biologia – um bandão enorme. Eu queria uma ciência só.
– Essa divisão da ciência em várias ciências – explicou Dona Benta – os sábios a fizeram para comodidade nossa. Mas quando você toma um objeto qualquer, nele encontra matéria para todas as ciências. Este livro aqui, por exemplo. Para estudá-lo sob todos os aspectos temos de recorrer à física, à química, à geometria, à aritmética, à geografia, à história, à biologia, a todas as ciências, inclusive à psicologia, que é a ciência do espírito, porque o que nele está escrito são coisas do espírito.
– Mas que é ciência, vovó? – perguntou Narizinho. – Eu mesmo falo muito em ciência mas não sei, bem, bem, bem, o que é.
– Ciência é uma coisa muito simples, minha filha. Ciência é tudo quanto sabemos.
– E como sabemos?
– Sabemos graças ao uso da nossa inteligência, que nos faz observar as coisas, ou os fenômenos, como dizem os sábios.
– Então fenômeno é o mesmo que coisa?
– Fenômeno é tudo na natureza. Aquela fumacinha lá longe, que sobe para o céu, é um fenômeno. A chuva que cai é um fenômeno. O som da minha voz é um fenômeno. Fenômeno é tudo que acontece. E foi observando os fenômenos da natureza que o homem criou as ciências.
No começo o homem era um pobre bípede que valia tanto como os quadrúpedes de hoje. Vivia como todos os animais, nu em pelo, morando só nos lugares de bom clima, onde houvesse abundância de frutas silvestres e caça. Um animal como outro qualquer. Mas a inteligência que foi nascendo nele fez que começasse a observar os fenômenos da natureza e a tirar conclusões. O homem teve a ideia de plantar, e com isso criou a agricultura. Teve a ideia de inventar armas, o arco e a flecha, o machado de pedra, o tacape, e com isso aumentou a eficiência dos seus músculos. Um dia descobriu o fogo e o meio de conservá-lo sempre aceso – e disso nasceu um colosso de coisas, entre elas o preparo dos metais. Com o fogo derretia certas rochas e tirava uma coisa preciosa, diferente da pedra – o ferro, o cobre, os metais, em suma. E com esses metais obtinha machados muito melhores que os feitos de pedra.
Também aprendeu a domesticar certos animais, de que se servia para a alimentação ou para ajudá-lo no trabalho. E a inteligência do homem, de tanto observar os fenômenos, foi criando a ciência, que é o modo de compreender os fenômenos, de lidar com eles e produzil-os quando se quer. E o homem tanto fez que chegou ao estado em que se acha hoje – dono da terra, dominador da natureza, rei dos animais.
– Bom, estou percebendo – disse Narizinho. – O que um aprendia, passava aos outros, não era assim?
– Exatamente. Para que haja ciência é necessário que os conhecimentos adquiridos por meio da observação se acumulem, passem de uns para outros e pelo caminho se vá juntando com os novos conhecimentos adquiridos.
Entre esses conhecimentos o maior de todos foi tirar partido de certas forças da natureza a fim de aumentar a força natural dos músculos. Isso deu ao homem eficiência, isto é, capacidade de fazer coisas. Por fim entrou a inventar instrumentos e máquinas, meios mecânicos de aumentar grandemente a força dos músculos – e hoje o homem tem máquinas poderosíssimas, como a locomotiva, o navio, os guindastes, os automóveis, os aviões, tudo. A ciência foi nascendo, e o que chamamos progresso não passa de aplicação da ciência à vida do homem.
Nesse ponto um passarinho cantou no pomar. Pedrinho pôs-se de ouvido alerta.
– Que passarinho será aquele? – murmurou, falando consigo mesmo. E saiu disparado para ver.
– Ora aí está como se forma a ciência – disse a boa senhora. – Se o canto fosse de sabiá, Pedrinho não se incomodaria, porque já conhece o sabiá. Mas como não reconheceu o canto, ficou logo assanhado por saber e foi correndo ao pomar. A curiosidade diante de um fenômeno que não conhecemos é a mãe da ciência.
Logo depois Pedrinho voltou.
– Era uma saíra das raras, a segunda que vejo por aqui – disse ele, e Dona Benta continuou a desenvolver o seu tema:
– Muito bem; sua curiosidade, Pedrinho, fez que você adquirisse um conhecimento novo. Ficou sabendo que esse canto é de uma saíra rara por aqui… Para chegar a essa conclusão, você teve de observar o fenômeno, de ir ver, porque só com o ouvido não podia identificar o passarinho. Você neste caso fez o papel do cientista que observa, descobre e fica sabendo. E nós aqui, que não fomos pessoalmente observar, aceitamos esse conhecimento que você adquiriu e também ficamos sabendo que o tal canto é de uma saíra rara por aqui. Quando alguém me perguntar: “Que passarinho é esse que está cantando?”, eu responderei, fiada na observação que você fez e nos comunicou: “E uma saíra rara por aqui”. Se a ciência ficasse com o homem que a adquire, de bem pouco valor seria, porque desapareceria com esse homem. Mas a ciência se transmite de um homem para outro e assim vai aumentando o patrimônio de conhecimentos da humanidade. Chegamos hoje a um ponto em que, para a menor coisa, recorremos a muitas ciências sem o saber. A pobre Tia Nastácia, quando vai assar um frango, recorre a uma porção de ciências, embora não o perceba. Para pegar o frango, para matá-lo, para depená-lo, para limpá-lo, para recheá-lo, para assá-lo, ela emprega inúmeros conhecimentos científicos, adquiridos no passado e transmitidos de geração em geração.
Pedrinho ficou entusiasmado.
– Nesse caso, vovó, eu sou um verdadeiro sabiozinho, porque sei mil coisas práticas. Sei sem que ninguém me ensinasse…
– Engano seu, meu filho. Tudo quanto você sabe foi ensinado sem que você o percebesse. A maior parte das coisas que sabemos nos vem de ver os outros fazerem.
– Isso lá é bem verdade – confessou o menino. – Cada coisa que eu sei veio de alguém lá de casa – sobretudo da mamãe e papai. A gente quando é criança presta atenção a tudo e imita. Mas eu não sabia que isso era ciência…
– Sim, meu filho, tudo que sabemos constitui ciência, e quando você estudar física, por exemplo, vai verificar que os livros de física apenas explicam teoricamente muita coisa que praticamente sabemos. Por que motivo na mesa, ontem, quando Emília derramou aquele copo d’água, você gritou para Tia Nastácia: “Traga um pano?”.
– Porque é com pano que se enxuga água.
– Perfeitamente. Você sabe de modo prático uma coisa que na física se chama capilaridade. O pano é feito de algodão, cujas fibras, por causa desse fenômeno da capilaridade, absorvem, chamam para si a água. Quer dizer que você, como toda gente, quando enxuga uma água com um pano, faz uso de um princípio da física, embora não o conheça teoricamente. Até Tia Nastácia, que Emília chama poço de ignorância, sabe um monte de coisas científicas – mas só as sabe praticamente, sem conhecer as razões teóricas que estão nos livros. Querem ver?
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