E-Book, Portuguese, 116 Seiten
London / Kades O chamado selvagem
2. Auflage 2020
ISBN: 978-85-8218-056-3
Verlag: Editora Dracaena
Format: EPUB
Kopierschutz: Adobe DRM (»Systemvoraussetzungen)
E-Book, Portuguese, 116 Seiten
ISBN: 978-85-8218-056-3
Verlag: Editora Dracaena
Format: EPUB
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O Chamado Selvagem lançado em 1903 é considerado a obra-prima de London e um de seus principais trabalhos, tendo emocionado milhões de pessoas em todo o mundo contando a jornada de Buck, um cão São Bernardo que é raptado de seu confortável lar e levado para o Yukon durante a corrida do ouro no século 19. Emocione-se e aventure-se com Buck nessa incrível jornada.
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Capítulo 02
A Lei do Porrete e das Presas
O primeiro dia de Buck na praia de Dyea foi como um pesadelo. As horas eram cheias de sobressalto e surpresa. Fora bruscamente arrancado do seio da civilização e lançado no seio das coisas primitivas. Para trás ficara a vida ociosa e radiante de sol, sem nada para fazer, a não ser vadiar e se entediar. Aqui não havia paz, nem descanso, nem um só momento de segurança. Tudo era confusão e ação e, a cada momento, a vida estava em risco. Havia uma necessidade imperiosa de estar constantemente alerta, pois aqui homens e cães não eram como os da cidade. Eram selvagens, todos eles, e não conheciam outra lei que não fosse a do porrete e das presas. Nunca vira cães lutarem como essas criaturas ferozes lutavam, e a sua primeira experiência lhe ensinou uma lição inesquecível. É verdade que a viveu como um simples espectador, caso contrário não teria sobrevivido para tirar proveito dela. A vítima foi Curly. Estavam acampados próximos ao depósito de toras, quando ela, em seu jeito amigável, foi se meter com um husky que, embora do tamanho de um lobo adulto, não era nem metade dela. Não houve advertência, apenas um salto como um relâmpago, um estalido metálico de dentes, um recuo igualmente veloz e o focinho de Curly foi rasgado de alto a baixo. Era o modo de lutar dos lobos: atacar e recuar. Mas havia mais do que isso. Trinta ou quarenta huskies correram para o local e rodearam os lutadores em um círculo silencioso e atento. Buck não compreendia tamanho silêncio, nem o jeito ávido com que estavam lambendo os beiços. Curly lançou-se contra o seu antagonista, que a atacou novamente e recuou de lado. O ataque seguinte foi rechaçado por ele com o peito, de um modo peculiar que a fez cair por terra. Não se levantou mais. Isso era o que os outros huskies esperavam. Fecharam o círculo sobre ela, rosnando e uivando, e ela ficou gritando de agonia sob a massa imóvel de corpos. Tudo foi tão repentino e inesperado que Buck foi tomado de surpresa. Viu Spitz deitar a língua escarlate de fora com ar de riso e viu François, brandindo uma machadinha, saltar para o meio do emaranhado de cães. Três homens com porretes o estavam ajudando a fazer a dispersão. Não foi preciso muito tempo. Dois minutos depois que Curly foi derrubada, o último dos seus atacantes era afastado a porretada. Mas ela estava estendida, débil e sem vida ali, na neve, ensanguentada e espezinhada, quase em pedaços, literalmente, enquanto o mestiço, de pé diante dela, praguejava horrivelmente. A cena veio repetidas vezes perturbar o sono de Buck. Então, era assim. Não havia justiça. Uma vez no chão, era o seu fim. Pois bem, trataria de nunca ser derrubado. Spitz deitou a língua de fora e riu novamente e, a partir daquele momento, Buck passou a odiá-lo amarga e eternamente. Antes que tivesse se recuperado do choque causado pela trágica morte de Curly, sofreu outro. François o amarrara com um conjunto de tiras e fivelas. Era um arreio, tal como vira os cavalariços colocarem nos cavalos em casa. E, assim como vira cavalos trabalhando, era, agora, a sua vez de trabalhar, puxando François em um trenó em direção à floresta que margeava o vale e retornando com uma carga de lenha. Embora estivesse profundamente ferido em sua dignidade, por ser transformado desse modo em um esboço de animal, era muito sábio para se rebelar. Empenhou-se em um propósito e fez o possível, embora tudo fosse novo e estranho. François era rigoroso, exigindo obediência imediata e obtendo-a, por força do chicote, enquanto Dave, que era um experiente cão de trenó, mordiscava as ancas de Buck, sempre que cometia algum erro. Spitz era o líder, igualmente experiente, e embora nem sempre pudesse tocar em Buck, rosnava uma severa repreensão de vez em quando ou atirava, habilmente, o seu peso sobre os tirantes, para empurrá-lo para o caminho que deveria seguir. Buck aprendia com facilidade e, sob a instrução conjunta de François e de seus dois companheiros, fez progressos notáveis. Antes que retornassem ao acampamento, já sabia o suficiente para parar, ao som do “Ho!”, ir adiante, ao som de “Vamos!”, mover-se em toda a amplidão nas curvas e se manter afastado do cão de trás, quando o trenó carregado se lançava montanha abaixo no encalço dos cães. – Três cães muito bons – disse François a Perrault. – O tal Buck, como puxa bem! Aprende rapidinho, como se fosse qualquer coisa. À tarde, Perrault, que estava com pressa para se por a caminho com os seus documentos, voltou com mais dois cães. Chamavam-se Billee e Joe, eram irmãos e huskies verdadeiros. Embora fossem filhos da mesma mãe, eram tão diferentes quanto o dia e a noite. O único defeito de Billee era ser excessivamente bonachão, enquanto Joe era exatamente o oposto, azedo e introspectivo, com um rosnado incessante e um olhar maligno. Buck os recebeu na camaradagem, Dave os ignorou, enquanto Spitz se ocupou de espancar primeiro um e depois o outro. Billee abanou o rabo com um jeito apaziguador, voltou a correr, quando viu que o apaziguamento não trazia nenhum proveito e ganiu – ainda com jeito apaziguador – quando os dentes afiados de Spitz se cravaram no seu flanco. Mas sem se importar enquanto Spitz circulava, Joe rodopiava em torno de suas patas traseiras para encará-lo, com o pelo eriçado, as orelhas caídas para trás, os lábios se retorcendo e rosnando, estalando os dentes um contra o outro, tão rápido quanto podia conseguir, os olhos cintilando diabolicamente – a encarnação do medo beligerante. Tão terrível era a sua aparência que Spitz foi forçado a renunciar a discipliná-lo, mas para disfarçar a sua derrota, voltou-se para o inofensivo e choroso Billee e correu com ele até os confins do acampamento. Ao anoitecer, arranjou outro cão, um velho husky, comprido, magro e esquelético, com o focinho marcado pelas cicatrizes das batalhas e um único olho, que chispava tal valentia, que impunha respeito. Chamava-se Sol-leks, que significa o Zangado. Como Dave, nada pedia, nada dava e nada esperava e quando avançou, vagarosa e deliberadamente, para o meio deles, até Spitz o deixou sozinho. Tinha uma peculiaridade que Buck teve o azar de descobrir: não gostava que se aproximassem dele pelo lado do olho cego. Buck foi culpado, involuntariamente, dessa ofensa, e só teve conhecimento de sua indiscrição quando Sol-leks rasgou sua espádua até o osso, de alto a baixo, em um comprimento de uns dez centímetros. A partir de então, Buck evitou esse seu lado e, durante todo o tempo de camaradagem entre eles, não teve mais problema. A única ambição aparente de Sol-leks, como a de Dave, era que o deixassem em paz; embora, como Buck veio a descobrir mais tarde, cada um deles possuía outra ambição, ainda mais vital. Essa noite, Buck enfrentou o grande problema que era dormir. A tenda, iluminada por uma candeia, resplandecia convidativa no meio da planura branca e, quando ele entrou ali, como era de se esperar, Perrault e François o bombardearam com maldições e utensílios de cozinha, até que se recuperou da sua consternação e fugiu envergonhado para a noite fria. Soprava um vento frio, que o transpassava sem dó e cortava com crueldade especial a sua espádua ferida. Deitou-se sobre a neve e tentou dormir, mas logo o gelo o obrigou a ficar de pé, tiritando de frio. Miserável e desconsolado, perambulou por entre as muitas tendas, apenas para descobrir que um lugar era tão frio quanto o outro. Aqui e ali, cães selvagens se lançavam sobre ele, mas eriçava o pelo do pescoço e rosnava – pois estava aprendendo rápido – e eles deixavam que seguisse seu caminho sem ser molestado. Finalmente, teve uma ideia. Retornaria e veria como os seus companheiros de grupo estavam se arranjando. Para grande espanto seu, haviam desaparecido. De novo, perambulou pelo grande acampamento, procurando-os e, de novo, retornou. Estavam na tenda? Não, isso não podia ser, caso contrário ele não teria sido expulso. Onde, então, poderiam eles, possivelmente, estar? De rabo entre as pernas e o corpo tiritando de frio, realmente muito desamparado, contornou a tenda sem saber para onde ir. De repente a neve abriu caminho sob suas patas dianteiras e ele caiu prostrado. Algo se revolveu sob as suas patas. Recuou de um salto, de pelo eriçado e rosnando, temeroso do invisível e do desconhecido. Mas um pequeno e amigável latido o tranquilizou, e voltou para investigar. Uma lufada de ar quente lhe subiu às narinas, e lá, enrolado em um buraco aconchegante, sob a neve, estava Billee. Ele ganiu em tom conciliador, contorceu-se e serpeou para mostrar sua boa vontade e intenções e, então, aventurou-se, como que em suborno pela paz, a lamber o focinho de Buck com a sua língua quente e úmida. Outra lição. Então, era assim que eles se arranjavam, hein? Buck confiantemente selecionou um lugar e, com muito rebuliço e esforço, tratou de cavar um buraco para si mesmo. Em um instante, o calor do corpo invadiu o limitado espaço e ele adormeceu. O dia tinha sido longo e árduo e dormiu profunda e confortavelmente, apesar de rosnar, ladrar e lutar, enquanto sonhava. Não abriu os olhos até ser despertado pelos primeiros ruídos do acampamento. A princípio, não sabia onde estava. Nevara durante a noite e ele estava completamente soterrado. As paredes de neve o comprimiam por todos os lados e uma grande onda de medo o invadiu – o medo do animal da selva pela armadilha. Era o sinal de que estava, através da sua própria vida, voltando às vidas dos seus antepassados, pois era um cão civilizado, injustificadamente civilizado, e já que não conhecia armadilha por experiência...




