Pessoa | In Evaristos Apotheke | E-Book | www.sack.de
E-Book

E-Book, Deutsch, Band 6, 128 Seiten, Format (B × H): 170 mm x 240 mm, Gewicht: 200 g

Reihe: Iberisches Panorama

Pessoa In Evaristos Apotheke

Erzählungen
1. Auflage 2022
ISBN: 978-3-96675-054-7
Verlag: KUPIDO Literaturverlag
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark

Erzählungen

E-Book, Deutsch, Band 6, 128 Seiten, Format (B × H): 170 mm x 240 mm, Gewicht: 200 g

Reihe: Iberisches Panorama

ISBN: 978-3-96675-054-7
Verlag: KUPIDO Literaturverlag
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark



Fernando Pessoa erschuf eine Handvoll Heteronyme und diese eine in sich kohärente wie kontroverse Utopie. Pessoa hinterließ auch orthonyme Prosa, Texte die seinen Namen tragen, die aber nicht weniger Scharade sind als das Gros seiner unauslesbaren Texte. Zur kontroversen Utopie zählen vor allem seine politischen und esoterischen Texte. Wie tief verwoben sie dennoch sind, wie sehr für Pessoas Figuren gilt: 'Wir sind Geschichten, die Erzählungen produzieren', das zeigen die orthonymen Erzählungen In Evaristos Apotheke und Der Bankier und Anarchist aus Pessoas letztem Lebensjahr 1935, in denen der Autor die Extreme Tagespolitik und Religion zusammenhält.

Fernando Pessoa (1888 - 1935) ist neben Luís de Camões (16 Jh.) Portugals bedeutendster Dichter. Er schrieb auf Portugiesisch und Englisch und erschuf einen Kosmos aus literarischen Subjekten, Heteronyme oder Halbheteronyme genannt. Die wichtigsten dieser über 100 Protagonisten seines Dramas in Leuten hießen Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro und António Mora. Sein Buch der Unruhe, das mehrfach den Autor wechselte, ist sein meistgelesenes Buch, das über Jahrzehnte entstand und wie fast alle seine Werke Fragment blieb. Er verfasste auch Prosa unter der Autorschaft Fernando Pessoa-selbst. Pessoa gilt als die herausragende Persönlichkeit des portugiesischen Modernismus und interagierte mit sämtlichen Strömungen der europäischen Avantgarde, wie sein vielseitiger Briefwechsel belegt, unter anderem die umfangreiche Korrespondenz mit Mário de Sá-Carneiro, die im Kupido Literaturverlag erscheint.
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O Banqueiro Anarquista (1935)


*Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa.

27²D-2 | Ms.Em torno de nós o restaurante calava-se, já quase deserto. Havíamos falado muito, e demorados, mas agora a conversa, que viera arrefecendo, jazia inerte entre nós.

Tentei reanimá-la com uma recordação que de repente me surgiu a respeito dele.

Ergui a cabeça e fitei-o, sorrindo, duplamente calmo, quedo.

27²D-5 | Ms.— É verdade: disseram-me aqui há dias uma coisa com piada a respeito de você.

A meu respeito?Var.: O que era? Coisa boa não era naturalmente.

— Nem boa, nem má. Simplesmente, achei-lhe piada. Disseram-me que você em tempos foi anarquista.

— Está errado, mas o que está errado é o «foi». Fui anarquista e sou anarquista.

— Essa é melhor ainda! … Então você … Ah, já compreendo: você é anarquista teórico. Você acha a doutrina anarquista boa, mas ou a acha inviável, ou pelo menos, inviável para você, na sua vida de banqueiro e grande comerciante.

— Não é nada disso. Sou anarquista naVar.: em teoria e sou anarquista na prática. Sou banqueiro e grande comerciante não apesar de ser anarquista, mas porque sou anarquista.

— Agora é que não percebo nada. Você estabelece entre o seu anarquismo e o seu negócio uma relação, por assim dizer, de causa a efeito.

27²D-6/7 | Ms.— Não é por assim dizer: é assim mesmo. Fiz-me banqueiro e grande comerciante em obediência – obediência consciente e propositadaVar.: orientada – aos meus princípios anarquistas.

Senti-me boquiaberto. Passei a mão lentamente pela testa, como para tirar um véu de pasmo, e consegui falar.

— Olhe lá: isto aqui há qualquer trapalhada. O mais natural é uma coisa que muitas vezes acontece em discussões: uma questão de definição.

— De definição como?

— Assim: estamos falando em anarquismo sem definir a palavra. Não nos entendemos, ou pelo menos, eu não o entendo. O mais certo é você entender por anarquismo uma coisa e eu entender outra … Diga-me o que entende por anarquismo.

— Por anarquismo entendo aquela doutrina social extrema que proclamaVar.: contende que não deve haver entre homens outra diferença ou desigualdades senão as naturais, nem pesarem sobre os homens outras peias ou outros males senão os que a própria Natureza dá … A abolição, portanto, de todas as castas, da aristocracia, do dinheiro, de todas as convenções sociais que promovam a desigualdade. A abolição, também, de todas as convenções sociais contra a Natureza, as pátrias, as religiões, o casamento … Não era isto que você entendia por anarquismos?

— Oh, homem, por desgraça, do meu juízo, era isso mesmo. Oiça: estou doido?

O banqueiro sorriu.

— E você quer curar-se? Se quer eu curo-o. O tratamento é um pouco longo mas dá resultado.

— O tratamento? Qual tratamento?

— Vou, se você quiser, explicar-lhe isso tudo, explicar-lhe como me tornei anarquista, explicar-lhe como por ser anarquista me tornei grande comerciante e banqueiro, explicar-lhe como sendo banqueiro, grande comerciante, e até como você sabe, açambarcador continou, por isso mesmo e assim mesmo, fiel aos meus princípios anarquistas. Leva um bocado a dizer, mas você convence-se. Disse-lhe, sim, que o tratamento era um pouco longo mas dava resultado. Quer ouvir?

— Hein, se quero! Diga, diga …

Versão de 1922 *Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o lentamente; fitou o fósforo que se extinguia; depô-lo ao de leve ao cinzeiro; depois, erguendo a cabeça, um momento abaixada, disse:

27²D-8 | Ms. Da.— Nasci, como você sabe, do que em língua burguesa se chama «gente humilde» – isto é, de gente pobre da classe trabalhadora. Quando se é pobre mas com traço burguês diz-se «boa gente». Quando se é trabalhador mas remediado diz-se «gente de povo». Eu nasci no humilde.

Sorri. Ele continuou.

— Quando digo «pobre», quero dizer realmente pobre – uma família em que não se ganha o bastante para o sustento, e muito menos para o mais também necessário, ou que pode ser necessário, como remédios.

Quando se é trabalhador, mas se ganha o bastante para tudo isso, é-se já o que eu chamo remediado.

— É o sentido lógico da palavra, mas não é o vulgar:

— Pois não. É por isso que lhe estou explicando.

Tirou um charuto da charuteira, trincou-lhe bruscamente a ponta, ascendeu-o com carinho rápido, e depois de, enquanto puxava o primeiro fumo, meditar abstractamente um pouco, encarou-me com uma espécie de decisão intelectual.

— Nasci, como lhe disse, de gente pobre. Entre pai e mãe, filhos, e a mulher e o filho de um deles, éramos onze em casa. Só cinco de nós trabalhávamos – meu pai, eu e dois irmãos meus, que os outros eram pequenos, e a minha cunhada, que era costureira. Estou-me referindo, é claro, à época em que comecei a tornar-me anarquista. (Inclinei a cabeça.) Com só cinco a trabalhar, e nenhum a ganhar mais que o bastante para se sustentar e se vestir decentemente só a si, pode você calcular como se vivia, se comia e se vestia naquela casa. Pois era assim que vivíamos, eu e a família, quando comecei a ter cabaça para pensar.

27²D-1 | Ms.Como seria este homem em jovem? Olhei-o, como tantas vezes o tinha olhado, mas desta vez de novo. A sua estatura média, de homem largo e forte, não se revelava estando ele sentado.

A cara seria grosseira se não fosse, por cima dos olhos um pouco cansado e das sobrancelhas espessas, a amplitude inesperada da fronte. Reparei, pela primeira vez, ao fixar o charuto aceso, nas suas mãos secas, um pouco mais longas, que o seu tipo físico normalmente consentiria.

Passou a mão horizontalmente, num gesto de afago vago, por sobre o bigode que seria farto se não estivesse cortado breveVar.: cerce.

E prosseguiu falando; e eu distraí-me dele para o ouvir.Var.: Parei de ver porque ele ia falar.

— Encontrei em você uma vontade, homem, encontrei em você uma vontade! … E rimos conjuntos – o banqueiro e eu.

*— Oiça. Eu nasci do povo e na classe operária da cidade. De bom não herdei, como pode imaginar, nem a condição, nem as circunstâncias. Apenas me aconteceu ter uma inteligência naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram dons naturais, que o meu baixo nascimento me não podia tirar.

«Fui operário, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo, o que a maioria da gente é naquele meio. Não digo que absolutamente passasse fome, mas andei lá perto. De resto, podia tê-la passado, que isso não alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela é agora.

«Fui um operário vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos possível. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas e, como não era tolo, nasceu-me uma grande insatisfação e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condições sociais que o faziam assim. Já lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me que eu era um ente a quem a Sorte tinha feito todas as injustiças juntas, e que se tinha servido das convenções sociais para mas fazer. Isto era aí pelos meus vinte anos – vinte e um o máximo – que foi quando me tornei anarquista.

Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco.

27²D-9 | Ms. Da.— Eu explico. Eu era tipógrafo. Ora eu sabia que qualquer dos oficiais de barbeiro da loja ao lado da tipografia ganhava mais do que eu, pelo menos nessa altura, e não contando gorjetas. Não percebia, dentro ou fora do sistema burguês, em que é que o trabalho dum tipógrafo tinha menos valor, social ou humano, que o trabalho de um barbeiro. Nem percebia porque é que, em boa justiça, eu, tipógrafo, havia de ganhar mais, porque ganhava, do que um cavador de enxada. Bem sei que economicamente isso é facilmente explicável; mas o economicamente é que me revoltava. Uma economia que produzia esses resultados era, para mim, e ainda é, uma injustiça e uma tirania.

— Os operários nem sempre vêem esse aspecto...


Pessoa, Fernando
Fernando (António Nogueria de Seabra) Pessoa, in Lissabon zur Welt gekommen, Schulausbildung in Südafrika (Natal), war Dichter, Essayist, Dramatiker, Prosaist. Er erschuf die Heteronyme Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caiero, António Mora u.v.a.m. und verfasste eines der größten Werke der Weltliteratur, das überwiegend postum ershienen ist.



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