Pompéia / Nemo | Romancistas Essenciais - Raul Pompéia | E-Book | www.sack.de
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E-Book, Portuguese, Band 8, 199 Seiten

Reihe: Romancistas Essenciais

Pompéia / Nemo Romancistas Essenciais - Raul Pompéia


1. Auflage 2020
ISBN: 978-3-96858-857-5
Verlag: Tacet Books
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark

E-Book, Portuguese, Band 8, 199 Seiten

Reihe: Romancistas Essenciais

ISBN: 978-3-96858-857-5
Verlag: Tacet Books
Format: EPUB
Kopierschutz: 6 - ePub Watermark



Na coleção Romancistas Essenciais o crítico August Nemo apresenta autores que fazem parte da história da literatura em língua portuguesa. Neste volume temosRaul Pompéia,escritor, abolicionista e republicano brasileiro. É considerado um dos mais importantes nomes do Realismo no Brasil, especialmente por seu romance O Ateneu. Não deixe de conferir os demais volumes desta série! Essa obra inclui: - O Ateneu. - As Jóias da Coroa.

Raul Pompeia(Angra dos Reis, 12 de abril de 1863 Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 1895) foi um escritor brasileiro, conhecido por sua obra O Ateneu.
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Capítulo I


- Ah, ah! Ah, ah!... É o que você pensa. Ninguém se arroja a uma empresa destas, sem saber o terreno em que vai pisar. Eu sou um jogador que sempre conhece as cartas de que dispõe e as do seu adversário... É o que faltava... Um homem habituado às dificuldades de todas as empresas espinhosas ...

- É exato, o senhor tem dado provas do que é capaz... aquele escandalozinho da rua... que se abafou tão bem, aquela caçada da Milica... Sem a sua habilidade as coisas não iriam tão macias, mas...

- Mas... que?! Pois você quer pôr em dúvida a minha confiança?! Garanto-lhe que o negócio não trará compromisso a ninguém... Você já tem cinco anos de serviço, tem garantias... Cá para mim, provoco os céus e a terra a virem estremecer a minha influência neste paraíso de bambus...

- É exato, ele precisa do senhor... quem ficará mal hei de ser eu. Se vou para a rua sem mais nem menos...

- Se é este o seu receio, eu o tranqüilizo... Assino, se você quiser, um papel de dívida, comprometendo-me a dar a mesma recompensa, seja qual for o resultado no negócio... Ora, imagine que nos venha daí um bolo de 600 contos... Dar-lhe-ia boa porção. Todos lucraremos maravilhosamente... Se não conseguirmos nada, ainda assim você estará perfeitamente, porque, se a coisa for impossível, não ficarão vestígios da tentativa, e, se formos surpreendidos... Não! Não seremos! O êxito é certo... As jóias do duque estão depositadas numa sala grande do lance esquerdo do palácio, num armário envidraçado. Se você continua teimando em não querer...

- Teimar não! eu estou apresentando dúvidas, porque ninguém deve...

- Não quero saber de doutrinas. Aceita ou não aceita? Responda já, sem muitas histórias... Está caindo a noite... Ou fazemos hoje ou nunca! Amanhã podem ter sido retiradas as jóias. Vamos deixar fugir a mais risonha fortuna... É impossível... Se você não aceita meu convite para acompanhar-me, eu irei só...

- Realmente não há muito tempo para reflexões e o negócio convida...

- Então?... O que decide?...

- Eu... Eu...

- Vamos!...

- Aceito,aceito.

- Ora graças! É preciso ser-se bastante idiota para hesitar tanto num caso destes. Ter nas mãos uma riqueza e temer perigos... Ora, Inácio, você não merece a sorte que lhe está reservada...

- Ainda veremos, sr. Pavia...

Esta conversa se travara no interior da vasta quinta do duque de Bragantina.

Um dos interlocutores era um indivíduo todo de branco, baixote, gordo, peludo na cara como um cachorro d'água, de fisionomia um tanto indistinta naquela hora, que ia adiantando o crepúsculo e os objetos começavam a esfuminhar-se na uniformidade da noite.

A pessoa com quem ele falava era um sujeito em mangas de camisa, fino, comprido, teso como um soldado, de cara rapada, olhar habitualmente baixo e movimentos receosos, denunciando que todo aquele retesamento era teatral; aquela espinha, tão enrijada para trás, caía muitas vezes para a frente em profundas continências, e aqueles ombros, que pareciam feitos para dragonas, apenas carregavam librés.

Este indivíduo era um criado, evidentemente; o outro, saberemos em breve quem era.

Os dois conversavam sobre um negócio importantíssimo. Tratava-se de adquirir da noite para o dia uma enorme fortuna. Um símile da sorte grande de jogatina legal.

Achavam-se ao portão de uma espécie de jardim sem cultivo, no fundo do qual elevava-se uma boa casa, através de cujas venezianas se distinguia a claridade das luzes que se acendiam lá dentro por causa da hora.

- Posso, pois, contar com seu auxílio? - perguntou o homem de branco ao criado.

- Sim, senhor. Desde que o senhor nada teme, eu também nada quero nada temer...

- Muito bem! Isto é o que se exige. Tenha confiança em mim e ajude-me que teremos sucesso...

- Mas diga-me primeiro o que devo fazer...

- Precisamos conversar...

- Preciso de ordens...

- Mas está serenando aqui... entremos para casa...

Pavia e Inácio atravessaram o jardim na direção da casa. Subiram os quatorze degraus de uma escada dupla, que levava à porta da entrada, e desapareceram no vão escuro que a porta fazia.

A noite caíra.

A quinta do duque passara insensivelmente das vacilações do crepúsculo para as trevas decididas das sete horas de um dia curto.

As moitas de bambus condensavam-se em amontoados impenetráveis de escuridão; os gramados do parque alargavam-se, confundindo-se com as alamedas de areia numa vasta toalha de crepe; para longe, recortavam-se as montanhas negras. Dir-se-ia que a natureza acabava de cobrir-se de lutuosos merinós, se não fosse o cetim azulado do firmamento, e se não chovesse o riso das estrelas.

Entretanto, reinava movimento no meio da noite. Os numerosos habitantes da quinta do duque, lacaios e protegidos, recolhiam-se naquela ocasião às suas habitações agrupadas em aldeia, nos fundos do palácio. Consumiam a última atividade do diário, preparando-se para o repouso confortante da noite. Na massa de habitações acumuladas ao norte do parque, que fundiam-se com a noite, começavam a aparecer pontos luminosos. Era a candeia de um sótão, o bico de gás de uma sala de jantar ou a vela de um quartinho.

Quando acabaram de acender-se as luzes também o movimento cessou. Principiaram-se os serões.

Levemos o leitor a um deles.

Uma rua, ou melhor, um estreitíssimo beco, esmagado entre duas paredes crivadas de janelas iluminadas ou não, é o caminho que conduz ao coração desse povoado da quinta.

No extremo dessa viela úmida e escura está uma porta aberta. Entremos...

É uma sala miserável, pobremente mobiliada. Das paredes caem flâmulas de papel descolado e no meio da casa gemem míseros trastes, sobrecarregados de ninharias. Pelas mesas há vasos de fantasia arabescados de rachas e esfoladuras sobre uns tapetes de lã felpudos e muito anchos; pelas cadeiras, retalhos de pano e objetos de costura.

A um canto, conversam baixinho um velho e uma velha. Estão sentados em cadeiras, ao lado de uma pequena mesa. Sobre a mesa há uma vela que bate-lhes no rosto e clareia a toda a luz as rugas das duas fisionomias.

Trocam vivamente palavras.

O velho, com dedo médio unido ao polegar, como apertando uma pitada, faz gestos de quem sabe o que diz, e a velha encara-o através de uns grandes óculos de aros pretos, aprovando com a cabeça,e fala de vez em quando, agitando a agulha que tem na destra e a costura que sustenta na mão esquerda.

Em outro lado da sala vê-se, toda encurvada sobre si uma mocinha. Acha-se sobre um banco com os joelhos cruzados, repuxando-lhe muito o vestido que comprime-lhe as formas. Dedilha febrilmente um cabo de crochet de osso branco. De tempos a tempos levanta o rosto com os olhos semicerrados e sacode para trás a vasta cabeleira negra e esparsa, que quer escorregar-lhe para o crochet.

É uma formosa criaturinha, feições de criança, ar distraído, um tanto carnuda sob uma epiderme sem irritações. Parece não ter quatorze anos ainda e podia usar vestido curto.

Eis mais ou menos o que diziam os velhos:

- Sim, sim, - falava o marido -, é preciso garantirmos o futuro daquela menina. Se não aceitássemos os oferecimentos do Pavia cometeríamos um crime.

- Um verdadeiro crime - afirmou a velha.

- Por um tolo escrúpulo não se há de perder um bom dinheiro...

- Tão bom dinheiro... - reforçou a velha, batendo com a cabeça.

- Demais, o lucro não será só para nossa afilhada, o nosso netinho terá o seu quinhão...

- Sim senhor... Sim senhor...

- Já vê que fiz bem em responder ao Pavia que sim...

- Muito bem. A nossa afilhada assim terá um futuro garantido. A proteção do sr. Duque não é qualquer coisa... Ah! quem me dera que eu ainda fosse fresquinha como antigamente...

Capítulo II


O velho não deu atenção ao honesto suspiro da digna esposa; ficou por alguns segundos remexendo o queixo escalavrado pelos anos e salpicado de raros fios de barba retorcida e branca. Os olhinhos castanhos piscavam-lhe vivamente, testemunhando o fervet opus de raciocínios que trabalhavam naquele crânio de setenta anos.

Depois, a fim de reatar a conversação, voltou-se para a velha:

- Não acha?... Demais, a gratidão nos obriga... Por nosso filho ter sido empregado do duque, não se pode dizer que este tenha o dever de nos dar casa e alimento até o fim da vida... Os favores escravizam um pouco a gente... E de que se trata? Não há nenhum sacrifício... É só vencer um escrúpulo... Isto para nós... A idiota da nora não tem energia para se opor, nem entenderá o riscado. Quanto à menina...

- Fale baixo... ela pode estar escutando e não há necessidade... Olhe que noite bonita! Veja ali pela janela...

- Como está estrelado o céu!... E está fresco...parece que o mau tempo acabou... Quanto à menina... O que vai sofrer?... As doces torturas que nós sabemos e depois levar a vida tranqüila de quem tem certeza de ser amparada em qualquer dia de necessidade... Suponho que as grandes chuvas, que tanto nos têm incomodado, cessaram de uma vez... Ela vai morar com o Pavia algum tempo, diverte-se, sai a passeio com a gente dele, vai ao teatro, coisa que ela nunca provou... Um belo dia, quando estiver sonhando alegrias nos cômodos agasalhos que lhe reserva o Manuel de Pavia, será visitada por uma sombra... Conversarão durante várias entrevistas, etc, etc. Há de ser bonito... garanto que a Conceição não chorará.

- O que é que...



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