Vignaroli | Pão Com Óleo E Arroz Com Ossos De Porco | E-Book | www.sack.de
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E-Book, Portuguese, 184 Seiten

Vignaroli Pão Com Óleo E Arroz Com Ossos De Porco

Pa' Cu' L'Ojo E Riso Sa L'Ossi
1. Auflage 2026
ISBN: 978-88-354-8619-0
Verlag: Tektime
Format: EPUB
Kopierschutz: 0 - No protection

Pa' Cu' L'Ojo E Riso Sa L'Ossi

E-Book, Portuguese, 184 Seiten

ISBN: 978-88-354-8619-0
Verlag: Tektime
Format: EPUB
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Por que escolher duas locuções tipicamente de Ancona como título para uma coleção de contos breves, adaptados essencialmente em Jesi e arredores? Creio que os leitores que têm mais ou menos a minha idade ou abaixo dali tenham colhido de primeira a ironia que se encobre atrás destas expressões, ligadas pois a alguns pratos típicos de Ancona e de Jesi, mas também direta sugestão da eterna rivalidade entre as duas vilas e usadas para zombar-se mutuamente de maneira goliarda e burlesca. O 'pão com o óleo' e o 'arroz com os ossos' eram pratos típicos da cozinha pobre das Marcas, o primeiro mais usado na zona de Ancona e ligado à produção de azeite, o segundo mais usado nas zonas do campo Jesino e do maceratese e correlacionado à pista do porco. Mas quando um jesino dizia a um anconitano 'Pà cu' l'ojo' fazia referência à típica inflexão dialetal, que tinha a sua expressão mais estrepitosa nesta breve frase. E o anconitano, decerto, não deixava escapar a deixa, para responder: 'Olha quem fala! Aquele que magna el riso sa l'ossi!' E mesmo aqui havia pois a referencia ao arroz cozido no molho obtido a partir da fervedura prolongada de restos de ossos do porco, disponíveis sobretudo no inverno, no período da 'pista', mas zombava-se particularmente o modo de pronunciar a letra 'esse' da parte de nós jesinos, que a assobiamos quase entre os dentes, fazendo sair um som doce, em vez de duro, como acontece no resto da região, dando às vezes à pronúncia dialetal jesina um sotaque que relembra de perto o toscano.

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  1. QUE SÃO MICHELE NOS PROTEJA!

As Marcas e os seus Burgos – 2022

Da trincheira de ronda, Demétrio, o Capitão dos guardas, observava já há bastante tempo as duas colunas de fumo denso que se enlevavam rumo ao céu, lá em direção do Monte Santo Vito. No seu coração estava realmente preocupado. Os castelos de Albarello e de Orgiuolo5 tinham sido destruídos pelos jesinos antes de abandoná-los, uma vez que aperceberam-se enfim que as milícias de Ancona chegariam em breve e não conseguiriam mais contrastá-las. E apos tudo, melhor deixar ao inimigo algumas ruinas fumegantes, do que edifícios funcionais a fim de usar como novos baluartes. Terra queimada era aquilo que têm feito por hábito os exércitos antes de retirar-se e deixar o campo ao inimigo. Não é que os jesinos não tivessem combatido para manter os castelos de Monsanvito, Albarello, Orgiuolo e até aqueles de Monte Marciano e a Fortaleza Priora. Mas enfim os anconitanos tinham-se aliado ao Duque de Urbino, ao Francesco Maria della Rovere, e isto era o que mais preocupava ao Demétrio. Imbuído nos seus pensamentos, não se apercebera tão-pouco da presença do Venanzio atrás dele, o Capitão do Povo, cuja voz fê-lo sobressaltar.

«Meu caro Demétrio, o que está a atezanar o seu coração? Não há que nos preocupar, os anconitanos não mover-se-ão até aqui em Morro. O legado pontifício reportaria ao papa, que repreendê-los-ia severamente, fazendo-os pagar também sanções em dinheiro. O Leão X, retomando os guiões dos seus antecessores o Gregorio XI e o Eugenio IV, estabeleceu que Monsanvito, a fortaleza de Fiumesino e o castelo de Albarello dizem respeito a Ancona. Pelo resto, como desde sempre, os territórios a setentrional de Esino pertencem a Jesi, aqueles a leste a Ancona, portanto, nós aqui podemos ficar tranquilos.»

«Caro Senhor, não são as escaramuças entre Jesi e Ancona que me preocupam. Os jesinos sabem bem como contrariar as forças anconitanas. Prova disto é que, não obstante as decisões do Papa, mantiveram sob assedio o Monsanvito, ocupado pelos anconitanos, por mais de um ano. E quando os soldados de Ascoli piceno, ao serviço de Ancona, tentaram alcançar Monsano, mandaram súbito para resistir ao ímpeto destes o Fiorano Santoni com uma banda e cavalos, que prontamente levou a melhor sobre os Ascolanos.»

Era o final de maio e os dias estavam a alongar-se. Era quase a hora do desejo, mas o sol estava ainda a desfilar bem alto no céu. Os dois capitães seguiram a trincheira6 até alcançar a torre norte-ocidental. Forçando o olhar contra sol, tentando observar o vale do Misa, além do Montaboddo7. Daquele lado tudo parecia tranquilo.

«Quem me preocupa, meu Senhor, é o Duque de Urbino», retomou o Demétrio. «O Francesco Maria Della Rovere herdou o Ducado de Urbino, sendo sobrinho de Guidobaldo da Montefeltro da parte da mãe. Até que o papa era um Della Rovere, ele era até capitão general da Igreja, mas mudado de papa, Leão X despojou-o das suas posses contra toda razão do Estado. Ele ora, para vingar-se deste, a parte a aliança com Ancona, contratou mercenários espanhóis e gascões, gente barbara e cruel, com os quais tentou reaver as suas posses, em detrimento de todos nós. É sabido que a sua fortaleza é Senigalli e nós estamos a dois passos. A sua fúria devastar-nos-á!»

«Os jesinos proteger-nos-ão,» replicou o Venanzio. «Apenas poucas semanas atrás, o passado 4 de maio, em ocasião da festa de São Floriano, oferecemos em Jesi o nosso pallio8 para renovar-lhe a nossa fidelidade. A nossa oferenda em cera foi de longe superior àquela de todos os outros Municípios do Condado. Confio no facto de que o exercito jesino estará aqui ao nosso lado no momento oportuno, mesmo porque daqui os mercenários do Della Rovere alcançariam Jesi num piscar de olhos e por isso devem ser travados antes. Em todo o caso, temos também as bombardas para rechaçar o inimigo!»

«Não estou tão seguro assim sobre a ajuda dos jesinos, meu Senhor. Dirigi-me justamente alguns dias atrás para Jesi e tive um encontro com o Piersimone Ghoslieri, claríssimo e estimado licenciado em direito civil e canónico, próximo, ao limiar dos seus sessenta anos, à investidura cardinalícia. Segundo ele sopra um vento estranho em Jesi. Há indício de conspiração, de traição. O Bispo, o Cardeal Baldeschi, sugeriu uma grande festa para o noivado entre a sua sobrinha Lucia e o filho do Capitão do Povo. À festa foram claramente convidadas todas as famílias nobres igualmente uns munícipes que fazem parte do Condado e daí, na ocasião, as portas da cidade ficaram abertas, seguramente até às horas mortas da noite. E tudo isto mesmo, ao mesmo tempo que um bom punhado do exercito anconitano, constituído por soldados de infantaria e sapadores, acampou-se na margem leste do Esino, muito nas proximidades do município de Monsano. Os anconitanos falam de exercitações, permanecem mesmo assim nos seus territórios, como a sul do rio, mas não há como fiar-se. Se os homens do Della Rovere, vindo para Senigallia, atacarão Jesi da parte setentrional, os anconitanos alcançarão em breve a cidade da parte oriental, e ela estará entre dois fogos cruzados. Se, como acredita justamente o Ghislieri, o Bispo concordou com o Duque de Urbino e com os anconitanos, o assalto dar-se-ia precisamente na ocasião da festa, com a cidade desguarnecida e as portas abertas. Para além disso, nós não iremos conseguir travar os mercenários Do Della Rovere, não podendo contar com a ajuda do exército jesino, que, com a desculpa da segurança em razão da festa, será mantido dentro das muralhas da cidadela.»

«Em tudo isto, meu caro Demétrio, que vantagem tiraria disto o Bispo de Jesi?»

«O Capitão do Povo de Jesi, o Senhor Franciolino Franciolini, poderia permanecer particularmente aniquilado na peleja, e se calhar mesmo o seu filho, o noivo da sua sobrinha. Permanecendo o Bispo a única autoridade presente, ascender-se-á ao papel de apaziguador, papel que não lhe será decerto difícil se já está em concordância com o inimigo. Fará boa figura com o papa e com a população e concentrará em si os poderes eclesiásticos do que aqueles temporais da cidade de Jesi.»

«Não creio que um homem da Igreja seja capaz de muito. Em todo o caso, que o exército de Jesi envie alguns homens para dar-nos uma grande ajuda ou não, nós temos o dever de enfrentar os homens do Duque de Urbino, devemos empenhar todos os nossos recursos para travá-los e evitar que se espalhem em direção a Jesi. Mesmo assim, pedi alguns homens também em Fabriano, que se sente ela também ameaçada. Provindo de Senigallia, enquanto parte dos mercenários dirigir-se-ão lá para Jesi, outros poderiam ressubir rumo a Arcevia para alcançar facilmente também Fabriano.»

«Meu Senhor, não creio que chegarão a tempo. A festa está prevista para o dia 3 do mês de junho. E hoje já é dia 31 de maio. Ficaremos sozinhos, poucos homens para enfrentar um exército de mercenários sedentos de sangue. Dais-me ouvidos, rendemo-nos. O exército ao serviço do Della Rovere passará mesmo assim, mas no mínimo teremos a vida salva.»

«Jamais, jamais!» Replicou o Venanzio, ostentando ao seu Capitão de armas o gibão que trazia vestido, de mangas curtas, de cor carmesim brilhante e que trazia como bordado a figura do leão rampante coroado. «Jurei fidelidade a Jesi e irei manter a palavra, até a morte! Mais que tudo preparemos as nossas duas bombardas e posicionemos uma sobre este torreão e uma sobre aquele a noroeste. Preparemos também balas em abundancia para disparar. Decerto, o inimigo chegará do lado do Mar e estará em desvantagem a partir da subida que deve afrontar para chegar ao pé da encosta. Antes que alcance as muralhas tê-los-emos atingido com vários projeteis.»

O Demétrio suspirou, sabendo que não podia contradizer tanto assim o seu Senhor, bem consciente de que as bombardas em sua posse eram datadas no mínimo dez lustros e disparavam balas de pedra com o peso de quinze libras9, enquanto o inimigo estava dotado de bombardas modernas, leves, que podiam ser transportadas por cavalos sem tanta fadiga e em condições de disparar projeteis explosivos. Bastaria um apenas destas para fazer ir pelos ares a única porta de acesso, abrindo ao inimigo uma fácil via rumo ao interior da fortaleza.

«Farei como sugerido, meu Senhor. Irei providenciar a transferência das bombardas a partir das caves aos torreões da parte setentrional, fá-los-ei montar e piquetar para prevenir recuos excessivos. Mandarei dispor nas suas proximidades todas as balas de que estamos dotados. Mandarei também a todos os homens na idade adulta, que não sejam inválidos ou macróbios demais, para manter-se prontos e armados e para alternar-se cada quatro horas na trincheira de ronda, a começar amanhã de manhã. Mas permitais-me no mínimo deixar abertos os acessos às caves, de forma que, se as coisas se desenrolassem para o pior, podemos ao menos ir para lá à procura de refúgio.»

«Pois bem, Demétrio. É assim que se fala, determinado e heroico! Eu mesmo preparar-me-ei para combater aos primeiros sinais de alerta. E que o São Michele proteja a todos nós!»

«Que o São Michele nos proteja!»

No dia seguinte, ao crepúsculo, os homens de plantão, para ganharem coragem entre eles, começaram a entoar um hino antigo.

Troa a corneta que já o dia foi-se,

já ao recolher obrigatório a canção enlevou-se.

Coragem, sentinelas nas torres guardas...



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