E-Book, Portuguese, 211 Seiten
Jorge A Costa Dos Murmúrios
1. Auflage 2010
ISBN: 978-972-20-4202-4
Verlag: D. QUIXOTE
Format: EPUB
Kopierschutz: Adobe DRM (»Systemvoraussetzungen)
E-Book, Portuguese, 211 Seiten
ISBN: 978-972-20-4202-4
Verlag: D. QUIXOTE
Format: EPUB
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Romance de um império de ocupação de costa, nada é atenuado ou escamoteado neste livro. Enredo e personagens arrastam consigo o significado caótico de um universo desregulado, onde o risco permanente torna os protagonistas dependentes em extremo de fortuitas coincidências.
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OS GAFANHOTOS
Oh, como choviam esmeraldas voadoras! O céu incendiou-se de verde onde nem era necessário — todas as fogueiras da costa tomaram essa cor, mesmo as que inchavam nos nossos corações.
Álvaro Sabino
O noivo aproximou-se-lhe da boca, a princípio encontrou os dentes, mas logo ela parou de rir e as línguas se tocaram diante do fotógrafo. Foi aí que o cortejo sofreu um estremecimento de gáudio e furor, como se qualquer desconfiança de que a Terra pudesse ter deixado de ser fecundada se desvanecesse. Já não estavam junto de nenhum altar, mas no terraço do Stella Maris cujas janelas abriam ao Índico. No terraço, obviamente, não havia janelas, apenas pilares sobre os quais se estendia uma cobertura suave mas suficientemente protectora para se poder receber um cortejo daquela importância e quantidade. O fotógrafo subiu a cadeiras e desceu até ao chão, de modo a ficar completamente estendido para apanhar o beijo em todas as posições. Por isso, o noivo continuava com os olhos fechados, e ela só de vez em quando abria os seus, e o cortejo aplaudia incessantemente como no final duma ária subtil que certamente não se ouvirá jamais. Pressuroso, o fotógrafo pediu que o noivo tomasse a noiva nos seus braços e a levantasse á altura do peito, junto da vedação que impedia que as pessoas, uma vez debruçadas, caíssem ao Índico. Era majestoso. Ela obedeceu encostou a cabeça ao ombro do noivo, e o noivo olhou ternamente para o rosto dela. Descidos e lânguidos, os olhos dele tinham alguma coisa líquida de peixe quando abriam e fechavam. Ainda ai o cortejo batia palmas, e havia quem transpirasse e tivesse as mãos enrubescidas de tanto aplaudir. Aquele era um momento cheio de encanto.
Então a noiva que tinha chegado apenas na noite anterior, mas a quem todos já chamavam simplesmente Evita, abriu os olhos, e mais do que a quantidade dos convidados, surpreendeu-se com o tamanho exemplar da mesa. As lagostas vermelhas e abertas ao meio estavam dispostas conforme um numeroso cardume. As papaias amarelas estavam cortadas em feitio de coroa de rei e coroavam a toalha inteira. Os ananases formavam uma pinha no centro, como se fosse o leque dum fantástico e emplumado peru. Ela aproximou-se desse peru, pondo o véu completamente para trás e rindo cada vez mais. Mas de facto, o local que Evita, docemente empurrada pelo noivo, deveria ocupar, não era ao centro — disse o fotógrafo com um gesto amplo — antes na cabeceira, onde havia um bolo de sete andares, com um ramo armado em forma de chuva. Um criado extraordinariamente negro, vestido de farda completamente branca, trouxe uma bandeja com uma espada. A espada era do noivo. Evita pegou na espada e fendeu o âmago do bolo até à tábua. Quando a espada bateu na tábua, acorreu de entre as mulheres uma delas de vestido sem costas com duas espátulas de cozinha. O Comandante da Região Aérea, que era marido da mulher das espátulas, avançou em primeiro lugar com o seu pratinho para receber uma trancha e aproveitou para estreitar a mão do noivo. O noivo era só alferes e o longo abraço que se seguiu ao aperto de mão, dado desse modo pelo Comandante da Região Aérea, perturbou-o a ponto de estremecer sob a pressão do punho do coronel, ali de passagem a caminho de Mueda. Nunca pela cabeça dum alferes miliciano tinha passado o sonho de que, no dia do seu casamento, houvesse um Comandante de Região que o viesse abraçai; e tudo isso foi captado pelo fotógrafo que tinha subido agora a uma mesa de apoio com toalha, junto da vedação. Dai até que chegasse a orquestra foi só um breve tilintar de copos. Um chupar de tâmaras. Os convidados de novo irromperam em aplausos.
E redobraram ainda as palmas quando a pequena orquestra de instrumentos quase todos de sopro começou a soar, tocados por quatro brancos e um negro. O negro ao tocar tinha as bochechas inchadas como se quisesse explodir. Toda a música era uma explosão que rebentava na tarde. O Comandante da Região Aérea, de passagem para Mueda, abandonou a mulher das espátulas e tomou a noiva, o noivo tomou a mulher das espátulas que havia acompanhado o marido só para conhecer Six-Miles e regressar logo no avião da manhã, e seguiram-se os pares rodando á volta da mesa imensa.
Rodavam, rodavam os pares. Foi há vinte anos, e ainda não era hábito os pares dançarem desenlaçados uns diante dos outros como outrora os espadachins. Pelo contrário, enlaçados e rodando, todo o espaço que sobejava da longa mesa foi ocupado com a trajectória das ancas, embora sobejassem mulheres apoiadas na grade, porque não se estava em tempo de paz completa. Ainda era de tarde, ainda o Sol estava bem amarelo e suspenso por cima do Índico, a cidade da Beira, prostrada pelo calor á borda dos cais, era tão amarela quanto o ananás e a papaia. A noiva suspirou não de cansaço ou de sono mas de deslumbramento, depois desse suspiro, o Comandante da Região Aérea começou a falar bem alto, como se esperava que falasse.
«África é amarela, minha senhora» — disse o Comandante, apertando pelo carpo a mão de Evita. «As pessoas têm de África ideias loucas. As pessoas pensam, minha senhora, que África é uma floresta virgem, impenetrável, onde um leão come um preto, um preto come um rato assado, o rato come as colheitas verdes, e tudo é verde e preto. Mas é falso, minha senhora, África, como terá oportunidade de ver, é amarela. Amarela-clara, da cor do whisky!»
Rodavam, rodavam sempre, ela de braços muito abertos, estendidos, levantados, para alcançar o alto da farda onde deveria poisar de leve os dedos da mão, em forma de vespa. Aliás, a noiva, sempre de braços abertos como antigamente, quando se fazia adeus a um transatlântico, dançou com um outro coronel, depois com dois majores, e em seguida com três capitães, rindo imenso. Quando teve pausa, nem se Lembrava qual deles lhe tinha dito:
«Ainda é cedo para ter verificado, mas verá que esta é uma das poucas regiões ideais do Globo! Admire a paisagem, e verá que para ser perfeita, só faltam uns quantos arranha-céus junto à costa. Temos tudo do século dezoito menos o hediondo fisiocratismo, tudo do século dezanove à excepção da libertação dos escravos, e tudo do século vinte à excepção do televisor, esse veneno em forma de écran. Com uns vinte arranha-céus, a casta seria perfeita!»
Evita quereria lembrar-se de qual dos oficiais tinha feito a síntese, mas as fardas, para além das riscas que envolviam as mangas, eram extremamente parecidas. As vozes, sendo diferentes, igualavam-se no mesmo modo de intensificar as últimas sílabas como se falassem para serem ouvidos à distância, na amplidão aberta da parada. Quando sussurravam, era com os gestos que sussurravam, e dai que não se lembrasse mais qual deles havia feito aquela admirável síntese. Quem teria sido? Evita não Ode perguntar-se mais do que durante um breve instante. Aproximava-se um par singular quando a mesa já começava a perder a frescura inicial por algumas cascas e muitos pratos retirados dos seus lugares simétricos. Evita tinha os olhos presos do par.
À primeira vista, a singularidade do par provinha sobretudo dela, pois ele apenas parecia transportar mais condecorações do que seria de admitir num homem da sua idade. Grandalhão. Ela, porém, destacava-se de tudo e de todos — dos objectos, da mesa, da fruta, da pinha dos ananases, de todas as coisas cortadas e perfeitas que ainda ali se encontravam. Destacava-se por ela mesma e pela cabeleira que era constituída por uma espécie de molho audaz de caracóis flutuantes que lhe caíam de todos os lados, como uma cascata cor de cenoura, enquanto os cabelos das outras mulheres, por contraste, eram dum castanho-escuro, sarraceno, ora passado a ferro pelas costas abaixo, ora em balão tufado do feitio duma moita, como então se usava. Evita conseguiu perceber também que entre a cor das unhas e a cor do cabelo, apenas havia um tom intermédio. Isso quando ela estendeu a mão. Na mão havia um anel que brilhava intensamente. A singularidade dela não se comparava com a dele.
«Apresento-te um herói» — disse o noivo, como se finalmente tivesse chegado alguém por quem estava definitivamente à espera.
«Que é isso? Gostei mas foi da forma como vocês se beijaram ali, boca na boca. Quem beija assim não é gago» — disse o capitão.
Mas o capitão não continuou porque se ouvia o Comandante da Região Aérea, sobraçando uma garrafa, dizer para algumas mulheres de vestidos sem costas que o tomavam — «Oh! Oh! A guerra! Se não fosse a guerra, mesdames, até a calmaria criaria pedra!» E como o comandante avançasse dizendo isso, o noivo e o capitão não puderam trocar outra palavra.
Pena! Ainda era muito cedo para se fechar a tarde, ainda era muito cedo para se falar de guerra, que aliás não era guerra, mas apenas uma rebelião de selvagens. Ainda era muito cedo para se falar de selvagens — eles não tinham inventado a roda, nem a escrita, nem o cálculo, nem a narrativa histórica, e agora tinham-lhes dado umas armas para fazerem uma rebelião... Era muito cedo para se falar do Império, e a orquestra começou a tocar de novo, embora suave, e a voz grave dum branco sem instrumento de sopro cantou, imitando a voz dum negro — Please, please, please, get out from here tonight... O frequente contacto entre os oficiais portugueses e os da África do Sul permitia a todos...




