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E-Book

E-Book, Portuguese, 188 Seiten

Jorge Intimidades


1. Auflage 2010
ISBN: 978-972-20-4230-7
Verlag: D. QUIXOTE
Format: EPUB
Kopierschutz: Adobe DRM (»Systemvoraussetzungen)

E-Book, Portuguese, 188 Seiten

ISBN: 978-972-20-4230-7
Verlag: D. QUIXOTE
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Dez contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras: Lídia Jorge, Inês Pedrosa, Lygia Fagundes Telles, Maria Teresa Horta, Teolinda Gersão, entre outras. Organização e Prefácio de Luisa Coelho

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Introdução


Esta colectânea de contos tem como principal objectivo contribuir para dar a conhecer, simultaneamente no Brasil e em Portugal, a literatura contemporânea de língua portuguesa dos respectivos países.

Para empreender tal tarefa, optou-se pela publicação de textos escritos por mulheres, porque se verificou que é nesse domínio que a divulgação é menor e portanto o desconhecimento mútuo é maior.

O conto, o género literário seleccionado, é uma forma que neste princípio de século está a ser recuperada e a receber uma grande projecção. Tornou-se um veículo de transmissão muito apetecível devido ao seu carácter conciso, à sua dimensão reduzida, à sua capacidade de exigir em menor duração temporal a atenção e a concentração do leitor no acto de leitura, e de compreensão total do texto, e também à possibilidade que apresenta de facultar, inserido em conjunto com outros, uma visão mais global (no sentido actual) e abrangente de uma determinada época e/ou de um determinado grupo, de um determinado tema. Estas características enquadram-no bem nos agitados tempos de predominância do frenesim audiovisual em que vivemos.

O tema sugerido como fio condutor para agrupar estes contos, alguns inéditos, outros não, foi o erotismo. Este tema foi escolhido por se achar que ele se encontra no centro de toda a problemática da arte — de todas as formas de arte — e se apresenta como um campo de reflexão que permite tecer muitas considerações, quer de natureza estética, quer social ou política, que possibilitam apontar semelhanças e dissemelhanças entre os textos entre si e entre o que os aproxima ou afasta enquanto produtos de diferentes culturas. Não se trata aqui, portanto, de assinalar apenas um texto à atenção dos leitores nem de avaliar a sua qualidade, mas de procurar entender como é que ele se insere num conjunto de questões que a literatura dirige a si própria e destina ao seu tempo, e levar os leitores a interessar-se pelo conjunto da obra da escritora em questão.

Como muitas vezes acontece o erotismo ser confundido com a pornografia, começaremos por analisar os dois conceitos, de forma a fornecer matéria de reflexão que ajude a estabelecer uma distinção entre ambos — tarefa já empreendida inúmeras vezes, mas nunca esgotada, e de enorme pertinência nos tempos que correm, em que a predominância do uso da realidade virtual como forma de entretenimento e busca de prazer, sobretudo no aspecto que aqui nos interessa e que diz respeito às formas de sedução e excitação, faz realmente vacilar «verdades» adquiridas.

Estando conscientes de que as definições destes conceitos têm variado ao longo dos séculos, de acordo com a ideologia de quem as profere e a contextualização espacial e temporal por que são habitados, o que lhes concede um carácter parcial, limitado e subjectivo (textos rotulados de pornográficos numa dada época e cultura surgem, alguns anos mais tarde, como sendo apenas eróticos ou apenas estéticos), avançamos com alguma precaução para uma breve reflexão, sem, no entanto, procurar utilizar uma lógica simplista e moralizante que traçe a priori os limites entre um «bom erotismo» e uma «má pornografia».

Pornografia


Vamos considerar como pornográfico o discurso em que a descrição do corpo ou de partes do corpo no exercício de actos sexuais é feita com o principal objectivo de produzir a excitação de um terceiro — o leitor, e onde essa descrição crua dos actos sexuais faz a sexualidade perder a sua complexidade. Esvazia o mistério da sexualidade de todo o seu conteúdo.

O discurso pornográfico é aquele que torna o acto sexual transparente, revelando aquilo que na sexualidade do dia-a-dia é invisível, numa estética hiper-realista, onde as cenas descritas são mais reais do que o próprio real (acumulando uma grande quantidade de sinais que acabam por afastar a realidade), e em que o sexo surge sem relação com o sujeito, sem inti midade e sem alteridade. O discurso pornográfico apresenta uma sexualidade sem mistério; é apenas a representação de uma pulsão primária a-subjectiva, imbuída de uma violência subjacente que se exerce sobre outra pessoa como única forma de se exprimir, já que o discurso pornográfico apresenta a sexualidade reduzida ao sexo como vector de uma relação de domínio e de submissão. O corpo é descrito como o lugar onde o poder pode manifestar-se ou exercer-se, uma vez que, anulada a subjectividade dos personagens, a sua resistência é apagada. É-nos oferecida uma representação sexual explícita sob uma óptica descritiva e neutra, e o sexo, perdendo subjectividade, é transformado num acto essencialmente físico e por essa razão susceptível de ser exibido. Os seus limites, do domínio do esgotamento ou da repugnância, são apenas físicos, não estabelecendo qualquer relação com as emoções.

A descrição dos actos sexuais não surge no texto pornográfico como um elemento da história mas como o fim de toda a história, um terminus, após o qual não há mais nada a dizer e/ou a fazer. Tentando alimentar o desejo, torna-o impossível, ainda antes de ele ter oportu nidade de surgir. No discurso pornográfico, a sexualidade é-nos apresentada como expurgada daquilo que a torna, ao mesmo tempo, um jogo e um compromisso, uma expressão da excitação dos sentidos e uma manifestação do desejo humano, uma mistura de instinto e de fantasia, de algo que pertence ao domínio do real e do misterioso — é-nos apresentada expurgada de erotismo. Nesta perspectiva, a pornografia seria a negação do erotismo e da própria essência da sexualidade.

Erotismo


O puro cumprimento do acto sexual não apresenta uma grande variedade de formas; no entanto, são inumeráveis as diferentes interpretações dos mitos e dos fantasmas que os seres humanos lhe acrescentaram e pelos quais por vezes mesmo o substituíram. O discurso erótico é um dos meios utilizados para fazer uma representação verbal mais completa de Eros, com todos os seus componentes, e não apenas como uma exploração grosseira e gratuita da líbido. Ao discurso erótico cabe sedu zir; ele encara a representação da sexualidade como não sendo apenas confinada ao sexo, mas envolvendo uma história, consciente e inconsciente, onde se inscrevem as relações que se estabelecem entre o desejo e o interdito, o encontro e o desencontro, o prazer e a dor, o sonho e a realidade, o amor e a morte.

Procurando desvendar os corpos na sua intimidade, o discurso erótico acaba por ser revestido de contenção e pudor. No discurso erótico, a sexualidade é linguagem, não apenas de palavras próprias que a dizem e que a fazem, mas também de palavras que atravessam as palavras comuns, de utilização diária, para voltar a determiná-las eroticamente. Isto quer dizer que no texto erótico a sexualidade se fixa, se experimenta e se atinge na descrição verbal da rela-cão do eu com ele próprio e com o outro — mesmo se for um outro ausente —, no reencontro, na espera, na sedução, no consentimento ou na recusa. A sexualidade é apresentada como a subjectividade onde existe uma relação de cada um com o desejo ou a aversão, a dor ou o prazer, a confissão ou a negação. O acto erótico, ao contrário do pornográfico, começa e acaba no imaginário, alimenta-o e fornece ao desejo a margem de fantasia necessária que requer o prazer. O erotismo é individual e tem como função satisfazer exigências particulares, provenientes do inconsciente e da história privada de cada um dos personagens, exigências que são fantasmas que na literatura são traduzidos na descrição de comportamentos e de actos.

Os contos seleccionados podem, então, ser considerados eróticos, porque o erotismo, na acepção em que o conceito aqui é apresentado, é o seu elemento dominante. No texto literário, uma das funções da linguagem predominante é a função estética, cujo objectivo é provocar o prazer estético, não só no receptor mas também no produtor e, dentro dessa perspectiva, consideramos que os elementos eróticos e pornográficos da narrativa também se preocupam com o prazer. No entanto, se a função estética e os elementos eróticos provocam um prazer intelectual, os elementos pornográficos provocam um prazer físico. O prazer provocado pelo texto pornográfico é de curta duração, e a narrativa repousa sobre um sentido denotativo, enquanto que o prazer provocado pela leitura e produção do texto erótico aspira a uma duração mais prolongada, e a narrativa repousa sobre o senti do conotativo. Estes três domínios, da estética, do erotismo e da pornografia, apresentam uma tal variedade que não podem ser considerados apenas como interdependentes. Oferecem imensos recursos para a literatura, evoluem e coabitam no espaço da sua interdependência e podem coexistir dentro da mesma obra. O elemento erótico nos escritos eróticos pode permitir intenções pornográficas ou até ser convertido em função estética e vice-versa. É conveniente frisar que a avaliação dos limites e fronteiras entre eles depende consideravelmente da sensibilidade das normas sociais, religiosas e morais de uma sociedade. Parece-nos, em resumo, que o erótico é do domínio da sedução — do imaginário —, e o pornográfico, do domínio da excitação — dos instintos.

Os...




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